Transgressão

Roberto de Souza Bittencourt
Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul

A psicanálise foi construída sobre os alicerces da transgressão. O conceito de inconsciente, introduzido por Freud, falava de uma outra criatura dentro de si mesma, desconhecida, obscura, vivendo no turbilhão das contradições, da irracionalidade, da para-lógica, que afrontava o modelo pré-estabelecido. A introdução da temática da sexualidade imfantil, revelando que as crianças não eram seres assexuados, como pretendia a moral vigente, representava outra transgressão; e o dispositivo da repressão, intensa e extensa, então descrita, que condenava o homem a uma vida limitada, "a uma miséria neurótica" no dizer de Freud, pode agora ser suficientemente reduzida, liberando o homem de seus inúteis e prejudiciais sofrimentos, se constituindo assim, numa outra transgressão.

A proposta psicanalítica cumpriu os seus objetivos no século que ora se aproxima do fim. E as modificações teóricas que se sucedem mantém a ebulição das idéias, num fervilhar construtivo inovador.

Nos últimos anos, uma ênfase maior tem sido dada ao fenômeno do narcisismo, que domina a humanidade com um poder deveras preocupante. O exagero do egocentrismo, da egolatria, até mesmo alimentados pela própria prática psicanalítica quando, equivocadamente, fortalece o individualismo, isola o homem de seus pares, os relacionamentos se enfraquecem, as instituições se vêm abaladas e a inserção do homem na natureza, que pretende dominar, se opondo à salutar parceria, o conduz ao desespero da solidão.

Como toda a proposta de trabalho com o ser humano, a psicanálise não está isenta das influências de outras modalidades de saber. Tudo o que conseguimos saber não existe isolado. As correlações são tantas, que corremos o risco de nos perdermos num emaranhado de associações. Será que isto deve ser entendido como um risco, que portanto deve ser evitado, ou devemos permitir que fluam as associações para buscarmos uma compreensão cada vez mais ampla do homem, dos seus sentimentos e desejos, de sua ambiguidade, das múltiplas facetas que se expressam nas flutuações de sua instabilidade, de sua insatisfação, de seu inconformismo criador, no devir que constitui a vida, já que as coisas não são, elas estão sempre se transmudando, se transformando, se transfigurando. "Não se pode chegar a saber o que cada coisa realmente é", dizia Demócrito. A força do homem/inseto, descrito por Kafka, reside precisamente em que é a expressão poética de um vazio: o "eu" pensante que se contempla no espelho se vê ilusoriamente estável, embora esteja imerso num processo radical de in-pertinência. A transformação de Gregório Samsa nos faz ver que os limites do "eu" na contemporaneidade apresentam um perfil disperso e instável. À imagem da estabilidade do "eu" Kafka opõe à de sua transformabilidade. O homem não é, se torna: "somos antes de tudo, metamorfose". Nenhum de nós, escreve Seneca, é amanhã o mesmo que foi na véspera; nada das coisas que percebemos permanece; eu mesmo quando falo de que estas coisas mudam estou em processso de mutação.

O mundo que a ciência nos tem apresentado até há pouco para que acreditemos, nos diz, em síntese: que o homem é produto de causas; que sua origem, crescimento, esperanças e temores, amores e crenças, dependem do resultado do posicionamento acidental de átomos; - que toda a inspiração, todo o intenso brilho do gênio humano estão fadados à extinção na morte do sistema solar, soterrados nos escombros de um Universo em ruínas; e que nenhum grau de pensamento ou de sentimento pode manter a vida individual após a morte. Em nosso século há um quadro de dissolução moral, espiritual e estética, mantendo nossa cultura sob tensão. Vemo-nos alicerçados em nós mesmos, tornando-nos criadores de nossos próprios valores, de vez que muitos dos valores antigos e crenças aceitas, deixaram de ser inquestionáveis. Por isto,pagamos um alto preço. De existência temporária e conduzidos por um super-ego demasiadamente individualizado ou pela sub-corrente genética, com podemos ser resposabilizados por qualquer coisa que nos transcenda? Se a mente humana não tem papel de parceria a desempenhar no universo, como sugere a física clássica, que relacionamento podemos ter com a natureza ou com a matéria? Temos sido alienígenas, situados à parte dele e em opoisção a ele. Lançamo-nos à conquista da natureza, a conformação dos outros, para sobrepujá-los e utilizá-los egoisticamente, sem olhar as conseqüências. E eles aí estão.
No retorno às idéias de Heráclito, o homem está inserido na unidade fundamental de todas as coisas. Na circunferência, o princípio e o fim se confundem. Ainda, segundo Heráclito, "para as almas, morrer é transformar-se em água; para a água morrer é transformar-se em terra. Da terra, contudo, forma-se a água e da água a alma" em fenômeno circular em que o princípio e o fim se confundem, numa concepção cíclica do tempo. Esta permanente transformabilidade de tudo que existe, nos conduz a pensar que, o que fora considerado pré-determinado, fixo, imutável e constante, hoje em dia, apoiado na física moderna, se torna difícil de conceber. Assim o homem, por mutações e inconstâncias que perpassam sua vida, não pode estar sujeito a modelos pré-estabelecidos. Ele é o criador e a criatura, interagindo numa circunstância.

A ciência determinista clássica cede lugar a uma nova ciência pluralista; respeitando outros questionamentos, outras culturas, cuja mensagem parece poder se integrar em um campo cultural mais vasto, inaugurando uma nova era do saber, em que as metamorfoses da ciência apontam para uma nova aliança, para uma escuta poética da natureza, para a convergência de duas culturas, abolindo a radicalidade da dualidade científica e humanística, que se interrogam sobre a significação dos mesmos fenômenos: o tornar-se, a reabilitação da desordem e o acaso organizador. Uma nova compreensão do ser humano nos levaria a concebê-lo à semelhança da indeterminação da realidade, sugerida pelo princípio da incerteza de Heisenberg em que a energia e a matéria, agora igualmente fundamentais, estão em permanente fluxo alternativo, com o nascimento e morte de partículas, nos indicando que não há algo nítido e fixo subjacente à nossa existência diária que possa ser conhecido. Tudo da realidade é e continua sendo uma questão de probabilidades. O homem inter-age na sua circusntância, inter-dependente na natureza, em permanente vir a ser. Pelo princípio de Heisenberg tanto ondas (energia) como partículas (matéria) são modos pelos quais a matéria se manifesta e as duas juntas são o que a matéria é. Mente humana e matéria emergem do mundo dos acontecimentos quânticos. Nossos padrões de pensamento e de relacionamento poderão ser explicados pelas leis e padrões de comportamento que regem o mundo de prótons e elétrons. Se nosso intelecto retira suas leis da natureza, nossa percepção dessas leis deve refletir a realidade da própria natureza. Retornamos, assim, a uma visão similar a dos antigos gregos. A visão mecânico-quântica do humano nos traz de volta a uma associação com o universo. Nos eventos no nível quântico, de natureza bizarra e indeterminada, nada em particular pode ser declarado existente em um espaço e tempo determinados e tudo flutua num mar de possibilidades. Um elétron pode ser uma partícula ou uma onda, pode estar numa órbita ou noutra- tudo pode acontecer. Será que isto nos levaria a negar a existência de qualquer realidade? A explicação mecânico-quântica da mente humana talvez seja o elo perdido entre o estranho mundo dos elétrons e a realidade do cotidiano. A cosmovisão quântica transcendendo a dicotomia entre mente e corpo, entre interior e exterior, revela-nos que as unidades básicas constitutivas da mente e as unidades básicas constitutivas da matéria brotam do vácuo, um substrato quântico comum e estão empenhadas num diálogo mutuamente criativo, cujas raízes remontam ao próprio núcleo da criação da realidade. A mente é relacionamento e a matéria é aquilo que é relacionado. Nenhuma delas, sozinha, pode expressar algo ou evoluir. Juntas, nos dão os seres humanos e o mundo.

A visão quântica do mundo transcende a dicotomia entre indivíduo e relacionamento. Os indivíduos são o que são sempre dentro de um contexto momentâneo. Eu sou meus relacionamentos com os subseres dentro de meu próprio ser, minha história, meus relacionamentos com os outros e com o mundo em geral.

A cosmovisão quântica nos dá uma visão do homem como livre e responsável, inter-agindo com os outros e a natureza, relacionado e naturalmente comprometido e, à cada instante, criativo.

Freud construiu uma cosmologia, isto é, um todo ordenado de causalidade e determinismo que se opunha ao caos. Um cosmos subjetivo. Uma ordem com suas cadeias e leis. Mas ele mesmo escreveu, no seu texto de 1920, que além desta ordem, que não pertence ao inconsciente, que não é fruto do recalque, que não é linguagem em suma, o que está para além de todo e qualquer princípio, qualquer organização, qualquer lei. É um além da representação e que pode ser entendido a partir da introdução do conceito de pulsão de morte, caracterizada como pura indeterminação, puro acaso. O que vamos fazer então com a ordem anterior? Ou somos ambas estas duas coisas ou como diria Heráclito somos seres de duas cabeças, uma com ordem outra sem ordem, em desordem?

A criação da ordem pela desordem, da ordem por flutuações, do caos entrópico através de ínfimas bifurcações, é fonte de evolução, de surgimento de novas organizações complexas, como no pacote quântico que nos fornece as leis probabilísticas de transformação entre partículas elementares.
Ao princípio da ordem, do simples, porque pré-determinado, se entrelaça o princípio do caos, da desordem, o princípio do não-princípio, o puro acaso ou flutuação das pulsões. Aquilo que não tem lei, que não pode ser redutível a séries associativas causais, introduziria neste universo a complexidade, onde tudo se complexifica. Seria muito mais fácil trabalhar no interior de um universo dito simples (como o da física clássica), do que no dito complexo (como o da física moderna).

A física clássica expurgou o aleatório, o singular do seu campo de trabalho. Quando tentamos trazer isto para o campo da ciência, no caso da física, nos vemos obrigados a introduzir nesse universo limitado do simples, as complexidades, como a teoria do caos que vai lidar com as probabilidades, com o acaso, com a desordem e a indeterminação. Vivemos num universo com uma simetria rompida, estranho ao ideal de harmonia geométrica da física clássica. O homem sabe hoje que não está só, na imensidão indiferente do Universo: se a ciência clássica havia reduzido a natureza à figura de um mero autômato, a ciência contemporânea devolveu-lhe seu potencial inovador e, por meio de um frutífero diálogo, reintegrou o homem ao Universo que ele observa e o observa.

É preciso portanto, introduzir este novo na psicanálise, mas não necessariamente reduzí-la a isso. Ela terá que aprender a conviver decididamente com isso. Agora, ao invés de termos apenas ordem, vamos ter também o caos. Este último, na verdade, é a própria condição da tarefa analítica, fundada na pulsão de morte.
Este caos que penetra na ordem disjuntando-a, desintegrando-a é que vai dar origem à criação através do combate de duas histórias. A pulsão de morte, por estar além da representação, não está no lugar da biologia, que obedece à ordem do biológico. Estaria entre a ordem do biológico e exatamente o que não é ordem, é caos, sob forma de resíduo do que não pode ser ordenável. A pulsão de morte, sem amor, sem ódio, sem perversão, desune obrigando o indivíduo a se reestruturar, formando novas ordens. Sendo desorganizadora, conduz à possibilidade de novas e inéditas organizações.

O embate, regido pela pulsão de morte, fundamenta o encontro entre dois sujeitos. Deste embate dependerá o bom combate. Na alternância de criador e criatura expressa-se a arte de ser psicanalista. No encontro analítico as influências recíprocas conduzem à construções e reconstruções a partir do caos, da desordem e da auto-criação, emergindo o homem para uma integração/totalidade cada vez mais ampla, através de contínuos e sucessivos processos de desintegração/nova integração, graças a Eros. A responsabilidade do analista se acentua quando sabemos que para viver tal situação é necessário que a análise seja um permanente ato de revisão da disposição de estar com o outro, repudiando a imutabilidade de modelos conhecidos que reproduzem situações prévias de onipotência-onisciência, de idealização e de coisificação. O analista estaria então com a responsabilidade de tentar viver com o outro, no presente, as condições que lhe foram historicamente negadas ou dificultadas.

Se o analista não compreende assim e abre mão do bom combate, pretendendo se manter assexuado, ascético e neutro, no lugar do morto, estaria dispensando o que a psicanálise tem de mais rica. A arte de psicanalisar tem que transgredir e transcender princípios, normas e técnicas para atingir seus objetivos. O ato psicanalítico ou ato de criação é uma transgressão.

Como sabemos, o princípio do prazer regula o funcionamento psíquico, regendo todos os acontecimentos, equivalendo na física clássica ao princípio da gravitação. Para além do princípio do prazer há algo, no entanto, que não é regulado por ele, que não se submete a ele, mas ao mesmo tempo, faz parte do campo psicanalítico. Seria o real? Ele é aquilo que nos escapa, é o irrepresentável, o invefável, o impensável. Dizer que além da representação está o real nada esclarece. Apenas faz da representação o lugar não do real, o lugar da realidade. Assim, real e realidade não se confundem, apesar de haver um certo compromisso da realidade com o dito real. O termo além vai ter quase a mesma complexidade que o termo morte, aquilo que todos sabem que existe mas que ninguém sabe o que é. O campo psicanalítico portanto se divide no espaço do inconsciente e em outra região que é o além, a pulsão de morte.

O encontro psicanalítico, ordenado pelas técnicas, foi transgredido pelo próprio Freud.

A modificação do setting restrito ou à sua ampliação, nesta transição do século, começa a privilegiar mais o indivíduo, em detrimento de uma técnica limitadora. Se estamos lidando também com algo da natureza do além, a nossa prática tem que desobedecer o conservadorismo do aquém. O êxito ou o fracasso do encontro da capacidade do analista de inovar, de aceitar conviver com a desordem organizadora das chamadas estruturas dissipativas de Prygogine, aplicada ao seu trabalho das flutuações e das inúmeras probabilidades que cercam o comportamento humano, ajudando o outro a encontrar uma vida melhor, menos sofrida e adequada aos seus desejos. Para que isto seja possível o referencial do psicanalista, na transferência, propicia as aberturas de caminhos.

As interpretações, quando deslocadas dos sentimentos de estar com na relação, de pouco servem. O estar com privilegia o indivíduo que se sente acompanhado. A transgressão à regra fundamental, elaborada em novos princípios instáveis, ainda em cogitação, talvez confirme uma nova prática psicanalítica, menos ortodoxa, mais livre e espontânea.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- Bornheim, G.A.- Os Filósofos Pré-Socráticos, Editora Cultrix, 1977, São Paulo.
2- Capra, F.- "O Ponto de Mutação", Editora Cultrix, 1993, São Paulo.
3- Capra, F.- "O Tao da Física", Editora Cultrix, 199 , São Paulo.
4- Freud, S.- (1914)- Sobre o Narcisismo: uma introdução, Imago Editora, 1974, Vol XIV, Rio de Janeiro.
5- Freud, S.- (1920)- Além do Princípio do Prazer, Imago Editora, 1974, Vol XIV, Rio de Janeiro.
6- Guitta Pessis-Pasternak (entrevistas)- Do Caos à Inteligência Artificial, Editora UNESP, 1992, São Paulo.
7- Prygogine, I. e Stengers, I.- A Nova Aliança, Editora UNB, 1984, Brasília.
8- Zohar, D.- O Ser Quântico, Editora Besteller, 1990, São Paulo.