Esse estranho, íntimo, multifacetado objeto a

Eliana Rodrigues Pereira Mendes
Círculo Psicanalítico de Minas Gerais

Resumo
O texto aborda o mal-estar contemporâneo, que consiste no sentimento de culpa diante do supereu dividido entre a pulsão e a sua renúncia.

As funções de crítica e vigilância do supereu são encontradas nas representações do objeto a de Lacan: o olhar e a voz, que têm, na época atual, uma grande relevância.

No mundo virtual, a verdade tem a estrutura de uma ficção. A realidade é para aqueles que não podem suportar o sonho.

A arte aparece, assim, na civilização, como uma tentativa de superação do mal-estar, pois pode atingir a fusão da pulsão criadora, por um lado, com os ideais mais caros aos seres humanos, por outro lado.

Palavras-Chave
Objeto a – Supereu – Gozo – Mal-Estar – Olhar – Voz – Ficção – Criação Artística.

Na sua releitura de Freud, Lacan introduz dois conceitos próprios que, a meu ver, contribuem de forma magistral para a compreensão de nosso mundo contemporâneo. São eles: objeto a e o conceito de gozo.

São conceitos complexos e abrangentes, que podem ser considerados sob vários ângulos. Nesse pequeno artigo quero refletir especificamente sobre a vinculação dos dois no que diz respeito ao sentimento de culpa, ao supereu, ao mal-estar e à sua superação na época atual.

Na retomada do “Mal-estar na civilização”, Lacan vai dizer, na teoria dos discursos, que exatamente aquilo que se acha excluído da civilização, esse rebotalho de gozo, esse resto, é o que, na verdade, estrutura toda a civilização e o campo humano como um campo de gozo, um campo de prazer, mas também de mal-estar. Como se dá isso? Para Freud, o mal-estar é o sentimento de culpa, que é uma variante da angústia diante do supereu.

A civilização exige a renúncia pulsional do sujeito e a pulsão, por sua vez, exige a sua satisfação. O supereu, que é a instância da censura, mas que também é pulsional, exige tanto a renúncia da pulsão quanto a sua satisfação. Exige esses dois movimentos opostos simultaneamente, como o representante da civilização no sujeito. O que a civilização tem de melhor, como a cultura, as artes e a própria organização que nos permite funcionar sem favorecer só a uns e a favor de todos, isso deve ser preservado, como um bem de toda a humanidade. Já o que a civilização tem de mais difícil, que é essa dualidade entre a renúncia e a satisfação das pulsões, é o que nos causa o mal-estar.

Podemos perguntar-nos: como se presentifica o supereu como instância da civilização?

Ele se presentifica nas funções de vigilância do sujeito, para saber se ele está agindo corretamente ou não. Mas, o que é agir corretamente? É satisfazer as pulsões ou os ideais?

O supereu tem uma lei louca que comanda: “Goza, goza seu filho da puta”. Essa lei é insana porque incita o sujeito a fazer justamente o que ela mesma condena. Daí o eterno conflito do ser humano.

Essas funções de crítica e de vigilância do supereu são encontradas exatamente nas representações do objeto a de Lacan: o olhar e a voz. Os dois, como rebotalhos da civilização são o objeto a por excelência. Não têm representação no significante da demanda, mas são os objetos que representam o desejo para o Outro. O objeto a, nesse caso, não é causa de desejo, mas é o supereu.

Esta faceta do objeto a como instância de controle está presente hoje em nossa cultura, através de várias manifestações sócio-culturais, nas quais se encontram filmes como: “O Show de Truman”, “Beleza Americana”, “Quero ser John Malcovitch”, entre outros, onde o olhar é que encarna a manifestação do Outro, nesse caso não o Outro da linguagem, mas a manifestação do gozo do Outro, que vai estar reduzido a um objeto virtual, circunstancial, que acossa o sujeito.

O cotidiano, através desse olhar, vem-se tornando uma forma de entretenimento, como demonstram os chamados “reality shows”, em programas como “Casa dos Artistas”, ou “Big Brother”, para citar só dois. Não se trata aqui de se ver algo edificante ou heróico, que deva ser usado como exemplo, mas tão somente de observar atos comezinhos do dia-a-dia como idas ao banheiro, bolinações sob o edredom, intrigas variadas, enfim, todo esse resto de comportamentos banais.

Na contemporaneidade, o discurso do capitalismo, acoplado ao discurso da ciência, ao invés de diminuir o mal-estar, só o aumenta cada vez mais, produzindo sem cessar, objetos sob a forma de olhar e de voz. A voz será, possivelmente o objeto das próximas décadas, com o aumento das inter-relações anônimas e virtuais e dos mandatos a que somos submetidos, atualmente, até pelos elevadores que anunciam os andares dos prédios. “Denise está chamando” é um desses filmes que demonstra o autismo das nossas relações com as vozes das máquinas.

Como informou Quinet em uma de suas aulas, na Europa está sendo desenvolvida uma modalidade de prisão, que é como se fosse um encarceramento virtual. A pessoa condenada ganha um chip, acoplado a uma pulseira que a vigia 24 horas por dia, sem que o Estado pague uma pensão completa para esse tipo de prisioneiro. O filme “Uma mente brilhante” mostra como o protagonista da história usa um chip imaginário que o controla, e quase destroça o próprio braço na tentativa de arrancá-lo.

A economia libidinal de nossas sociedades capitalistas tardias baseia-se na proliferação de sintomas, de tiques particulares e contingentes, que dão corpo ao gozo e que estão bem exemplificados pelos incontáveis aparelhos com os quais a tecnologia nos bombardeia diariamente. Nesse capitalismo tardio, de perversão generalizada, a própria transgressão é solicitada, somos invadidos por objetos e formas sociais que não apenas nos permitem viver com nossas perversões, como também propiciam o aparecimento de novas fórmulas perversas. Todos os acessórios inventados para dar diversidade e excitação à nossa vida sexual, por exemplo, não se contentam em incitar o desejo sexual “natural”, mas procuram dar um suplemento, emprestando-lhe um viés “perverso”, excessivo e extraviado. São os objetos a do mais de gozar, com as bizarrices das sex shops e das fantasias ilimitadas.

Slavoj Zizek comenta, num artigo do suplemento Mais da Folha de São Paulo que, nos Estados Unidos há um jogo sobre o corredor da morte na cadeira elétrica, no qual o jogador se dá doses controladas de eletricidade até morrer. É a transformação do ato máximo do poder estatal – a condenação à morte –, em instrumento de prazer obsceno. Lembro aqui também a obscenidade de se ver execuções de seres humanos, desde as fogueiras e empalamentos da Idade Média, até as forcas e as cadeiras elétricas de tempos mais recentes. A economia do consumo capitalista é mestra nessa mais valia macabra: a própria produção cria a necessidade do uso dos objetos por ela produzidos, como no caso também dos armamentos bélicos que favorecem as guerras no mundo todo.Nos jogos cibernéticos e na rede virtual da informática, um neurótico fragilizado pode “adotar” a persona de um machão agressivo ou de um Casanova hiperpotente, por exemplo. Seria fácil dizer que o neurótico se refugia no virtual para escapar de sua vida monótona e incompetente. Mas, pode ser que esses jogos sejam mais sérios do que aparentam. Por meio deles pode-se articular o núcleo perverso e agressivo da própria personalidade, o que não poderia ser vivido no contato direto com os outros, por causa das constrições ético-sociais. Nesse caso, o encenado é mais real do que a própria realidade, mais próximo do verdadeiro cerne da personalidade do que o papel que se assume no dia-a-dia da vida comum. É, justamente, porque tudo no espaço cibernético é visto como “apenas um jogo” que se pode vivenciar nele tudo aquilo que não é permitido nos contatos subjetivos “reais”. O jogo funciona como a estrutura dos atos falhos, que, na verdade, não são nada equivocados, mas muito bem sucedidos como manifestação da verdade do inconsciente.

Nesse sentido Lacan diria, segundo Zizek, que a verdade tem a estrutura de uma ficção: o que aparece sob a forma de sonho ou devaneio, é, por vezes, a verdade oculta, sobre cuja repressão se funde a realidade social. “A realidade é para aqueles que não podem suportar o sonho”, segundo completa Zizek.

Sobre a ficção, gostaria de acrescentar uma palavra final. A literatura, o cinema, o teatro e outras formas de arte anteciparam esses jogos que hoje vivenciamos. “O Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, “1984” de George Orwell, “Farenhait 451” de Ray Bradbruy (o livro) e François Truffault (o filme) são exemplos disso.

Os amigos imaginários das crianças, os delírios e alucinações dos psicóticos, os devaneios e produções artísticas demonstram que a infância, o loucura e a arte estão mais perto do coração selvagem da vida, onde pulsa o inconsciente e habita a fantasia.

A imaturidade da criança, a impossibilidade do psicótico e a coragem do artista fazem com que o estranhamento familiar e o retorno do recalcado sejam tolerados sem tanta aversão.

A arte, mais bem sucedida do que a loucura e sendo um privilégio da civilização, está sempre na vanguarda do tempo e apresenta essa possibilidade de remexer no desconhecido, no intocado, criando algo novo.

A criação artística, a meu ver, captura esse momento mágico em que o objeto a tanto pode representar o ideal quanto a pulsão criadora, fusionados aí numa forma nova de manifestação, que pode, até mesmo, romper o mal-estar que nos acompanha como seres humanos. Tanto assim que, se numa determinada época uma criação artística desagrada pelo seu arrojo, pela sua novidade, noutro tempo ela já pode ser assimilada, como se a passagem do próprio tempo, e a cultura se encarregassem de “digerir” a estranheza que ela causou. Daí as mudanças das diversas escolas de literatura, das artes plásticas, do cinema, do teatro. Como a arte sempre se antecipa, traz consigo um enigma. A banalização de um símbolo, de um produto, por sua vez pede outro novo, um passo adiante, uma outra ousadia.

A verdade, aí também, tem a estrutura da ficção. A vida imita a arte, tanto quanto a arte imita a vida. O olhar e a voz dos artistas voltam a funcionar como objeto a causa de desejo.

Referências Bibliográficas

ZIZEK, Slavoj. A fuga para o real. Artigo do Suplemento Mais da Folha de São Paulo, domingo 8 de abril de 2001. Anotações em Seminários de Antonio Quinet, ministrados em 2001.
MENDES, Eliana Rodrigues Pereira. O que a psicanálise tem a ver com isso? Artigo apresentado nos Seminários da Biblioteca do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, em 1996, inédito, fazendo uma intersecção entre antropologia, arte e psicanálise.

ABSTRACT
The text approaches the discontents in contemporaneity that consist in the guilty feelings confronted to the superego splitted between the instincts and their denial.

The superego functions of criticism and awareness are found in the representations of Lacan's object a: the look and the voice, which, in our days, have a great relevance.

In the virtual world, truth has the structure of fiction. Reality is meant to those who cannot support the dream. The artistic creations appear, in the civilization, as an endeavor to overcome the discontents, because they can make the fusion of the creative instincts, in one side, and the dearest ideals of human beings, in the other side.

KEYWORDS
Object a – Superego – Enjoyment – Discontents – Look – Voice – Truth – Fiction – Artistic Creation.