Transformação e clínica: a produção de sentidos vista sob o foco das relações transferenciais e da comunicação entre inconscientes

Rejane Czermak
Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul

Resumo: O artigo problematiza os processos de transformação subjetiva que se operam na clínica psicanalítca situando as relações transferencias e a produção de sentidos a partir de uma lógica estética em oposição a uma lógica interpretativa.

Palavras-chave: Psicanálise - processos transferenciais - interpretação - criação.

Tendo a psicanálise como o campo teórico e prático de referência, vemos que os processos transferenciais e contratransferenciais se colocam como possíveis ferramentas conceituais para pensar a produção de sentidos vista sob o foco das relações interpessoais e da comunicação entre inconscientes.

Ao percorrermos as idéias desenvolvidas por alguns autores clássicos da psicanálise, vemos o quanto esta temática nos coloca em um terreno repleto de controvérsias e, de certa forma, delicado.

No que se refere às controvérsias, podemos buscar exemplos em Freud e Ferenczi:

Freud (apud Figueira, 1994), ao abordar a relação terapeuta-paciente e a comunicação entre inconscientes, apresenta uma concepção negativa do fenômeno da contratransferência. É algo que surge no analista como resultado da transferência do paciente e que deve ser controlada pelo analista na medida em que representa os sentimentos inconscientes patológicos do próprio analista. Aqui vemos um entendimento da relação como tendo uma só via e a defesa de uma posição neutra do analista. Conforme Freud, “o médico deve ser opaco aos seus pacientes e, como um espelho, não lhes mostrar nada, exceto o que lhe é mostrado” ou em outra observação posterior: " O melhor para êle (o paciente), é que o médico trabalhe com sangue frio e de maneira mais correta possível".

Ferenczi em contrapartida vai falar de um “diálogo entre inconscientes, ou seja, uma rua de duas vias: “é como se dois psiquismos chegassem a uma unidade. Os sentimentos dos analistas se ligam aos dos analisandos e as idéias dos analistas, que até então eram desprovidas de vida, se tornam acontecimentos e, da mesma forma, os sentimentos tempestuosos dos analisandos são preenchidos de conteúdos representacionais” .

De qualquer forma, seja a posição do analista permeável ou impermeável aos fenômenos transferenciais, os mesmos entendidos como exclusivamente resultantes do mundo psíquico do paciente, ou como emergentes da singularidade da relação analista-paciente, trata-se, no final das contas, de uma questão de escola e de técnica que, por sua vez, entendo como inseparáveis da personalidade do próprio analista, ou seja, da marca de seu estilo no processo.

E aqui entramos no terreno delicado da questão: quer o analista ser um cirurgião ou um artista?

Talvez, por uma questão de estilo, prefira defender a segunda posição, pois me parece mais interessante situar a construção dos sentidos que se produz na clínica no plano da criação do que na ordem exclusivamente das formações substitutivas, “como se bastasse entender que um inverno é assim porque é igual ao do ano anterior” . A produção de arte e o processo criador não podem ser reduzidos às generalizações interpretativas, visto tratar-se de um movimento complexo, único na sensibilidade de quem cria como também de quem se deixa afetar pela criação. Indagar, portanto, sobre a criação de sentidos na análise a partir de um paradigma estético remete a problematizar a centralidade do papel da linguagem na análise e consequentemente situar a dimensão corporal, sensível e afetiva dos processos de significação.

No sentido de avançar a posição que liga a idéia de psiquismo e os processos de significação a uma linearidade reducionista e totalizante em termos de uma origem imanente, Bleichmar (1988) vai pensar os processos psíquicos a partir da metáfora de uma máquina produtiva que não pode ser entendida a partir de um modelo fundamentado em uma lógica binária, que só funcione por analogias e associações. “Ao se postular a circulação do afeto de uma idéia isolada a outra idéia também isolada, deixa-se de lado que estas se encontram sempre no seio de redes, portanto, seu sentido surge de uma combinatória e não de um valor intrínseco” (1988 :71).

Ao pensar os estados afetivos e os quadros psicopatológicos como resultado de uma combinação de elementos Bleichmar (1988) usa como exemplo o surgimento da fala no bebê. O que aparece é a frase construída, porém, o processo que levou a construção desta frase é sempre da ordem de uma complexidade que nunca pode ser reduzida a suas causas mais simples, pois a frase surge em um composto de sensações que englobam cheiros, gostos, movimentos, cores, intensidades, velocidades, palavras, sons, distâncias, etc. Da mesma forma, o relato ou o sintoma não é um mero efeito de um núcleo inicial ou de múltiplas ramificações deste núcleo, distorcidos pelos efeitos de simbolização ou de deslocamento e condensação.

A fala coloca em jogo uma rede de dispositivos de uma máquina produtiva construída no emaranhado de percepções, ou seja, de elementos que são sempre da ordem afetiva e da ordem relacional. Já em Ferenczi podemos encontrar a idéia de "Einfühlen" (sentimento) como a possibilidade de estabelecer um tipo de relação entre terapeuta-paciente, que remete diretamente a um nível emocional - anterior aos das relações de discursividade, - que por sua vez conduz a um novo começo. Winnicott vai nomear este processo de “apercepção criativa”, pois acontece em um plano sensível, independente de qualquer imagem, de qualquer significação simbólica, ou conforme Lacan, independente de qualquer articulação significante, na medida em que diz respeito a um puro fazer sem significação, que só se torna sabido em ato e se produz no limite do encontro com o objeto real.

Partindo, portanto, do resgate da dimensão afetiva presente na diferença de posições/entendimentos entre Freud e Ferenczi, assim como nas formulações de Winnicott e Lacan sobre os processos criativos, buscaremos situar o “acontecimento” clínico em sua relação com os processos afetivos, naquilo que, no encontro do sujeito com o mundo, é vivido não enquanto sentimentos, mas como forças em seu poder de afetar e serem afetadas. Afeto, portanto, só pode ser pensado na coexistência de forças com diferentes intensidades. Trata-se do sentir imediato de um efeito, onde a intensidade da emoção e sua variação no tempo implicam a percepção de um si mesmo que emerge como uma qualidade interna surgida da relação com o outro, para em conjunto e como reflexo desta experiência, traduzir-se como o sentir de si próprio transformado na e pela própria relação. A partir dos diferentes encontros sensíveis do sujeito com o mundo e a cada novo encontro o sujeito se repete como potencialidade diferencial, como um sentido de maior grandeza, de mais potência.

O sentido de potência ou, conforme Nietzsche, a “vontade de potência”, forma o pano de fundo de toda vida mental, sendo o sentido de impotência e de onipotência os extremos desta dimensão. Desta forma, situamos a repetição, não na lógica de um gozo à deriva, mas como um movimento auto-organizativo e auto-referencial, em um nível intencional, inconsciente e pré-pessoal, onde o sujeito emerge simultaneamente como causa e efeito do encontro, sendo que o critério desta organização é sempre vital. A dimensão afetiva remete, portanto, a processos singulares de invenção de si, enquanto uma orquestração de diferentes linhas intensivas que atravessam o corpo no encontro com outros corpos, humanos ou não, e que se organizam como um evento subjetivo polifônico.

Esta vida mental, por sua vez, só pode ser pensada em sua dimensão relacional e afetiva, portanto, em sua dimensão transpessoal enquanto afetos, suas variações e abstrações que se produzem no encontro dos corpos que se experimentam.

Aqui é importante salientar que ao falarmos do corpo e suas intensidades não estamos nos referindo a uma pulsão força como pura carga sem representação, pois entendemos que o único campo abordável pela psicanálise é o da representação.

As mensagens do corpo, embora não adotem uma modalidade lingüística, nem por isto deixam de entrar na ordem do discurso, pois a dimensão afetiva só pode ser pensada como simultaneamente produção de abstrações, pois o que é experimentado dentro do corpo como o vivido sensível é vivido simultaneamente fora do corpo como representações mentais de potência, impotência ou onipotência. São estas representações primárias que irão se ligar a diferentes construções fantasmáticas enquanto estruturas complexas que intervêm desde o inconsciente até o consciente.

O inconsciente e seu funcionamento articulam o representacional lingüístico e o representacional não lingüístico num constante processo de transformação em que cada entrada de um novo registro reorganiza o anterior. O inconsciente não apenas fala ao corpo, joga com as representações que modulam e até moldam este corpo, mas também o inconsciente o escuta, produz sentido através deste corpo que se “experimenta-com”. Para Nietzsche, “o inconsciente é o próprio corpo”, enquanto esta dimensão afetiva, este “entre” onde o processo criador acontece, não como algo que se opera em níveis primários de desenvolvimento ou de funcionamento psíquico, mas como algo que está sempre e continuamente presente, enquanto o próprio funcionamento do psiquismo em sua dimensão estética e, conseqüentemente, criadora. Procurar o sentido aonde ele ainda é pura sensação sem nome é tentar permitir que um nome possa emergir na imediatez de um instante, em “uma leitura onde a linguagem toma corpo através da sintonia, das ressonâncias, das conjunções e disjunções dos fluxos intensivos que emergem entre os corpos que se experimentam”.

Neste ponto podemos retornar à questão inicial deste ensaio no que diz respeito à produção de sentidos na relação analista-paciente, à comunicação entre inconscientes e aos processos de transformação subjetiva. Trata-se sempre de um encontro que também é da ordem afetiva e, por ser assim, produz efeitos na dupla que o experimenta e, conseqüentemente, possibilidades de resignificação. Trata-se do “efeito-da-presença” como possibilidade de criação de novas significações a partir da experimentação da diferença: diferença de velocidades, de tonalidades, de intensidades, de aproximações, de afastamentos, pois, segundo Deleuze (1992) devir é uma questão de matéria, de intensidades e de suas transformações.

Neste sentido Gil (2002) nos fala da comunicação entre inconscientes a partir do conceito de atmosfera: “A atmosfera tem uma densidade, uma espessura, tal como uma dinâmica própria de forças que ela põe a circular, porque a formação da atmosfera acompanha-se sempre de uma libertação de forças. Não há atmosferas neutras, pois a neutralidade significa a inexistência de atmosfera” (p. 26).

As forças que povoam a atmosfera e que imprimem um movimento incessante às suas partículas ou pequenas percepções são forças inconscientes de afeto que põem em contato imediato os corpos e os inconscientes que nela mergulham precisamente porque são fluxos de afetos.

Trata-se, a partir do ponto de vista econômico freudiano, de fazer uma leitura de como se distribuem, se deslocam, se preservam e se perdem estas forças que circulam no campo clínico, este espaço entre-dois, que é sempre um espaço “entre-muitos”, “entre-mundos”, buscando, conforme propõe Coimbra (2003) “substituir essa energética freudiana por uma economia política do gozo. Economia porque o gozo se produz, se perde ou se ganha, e política porque a produção, o ganho e a perda se inscrevem em uma estrutura do discurso”.

Desta forma, a psicanálise voltada para uma clínica da singularidade se propõe, conforme Birman (1999), a gerir o mal-estar, no sentido de abrir possibilidades de criar e de gozar do sujeito para poder encontrar para cada singularidade um certo “estilo de existir possível”. Para isto, conforme o autor, o espaço psicanalítico transforma-se num espaço de descoberta de que aquilo que nos constrange na nossa capacidade de gozar e de criar são normas artificiais criadas por nós mesmos e por agenciamentos sociais dos quais nós somos autores.

Assim, se entendemos a psicanálise como instrumento privilegiado de transformação/criação e expansão da vida, seus conceitos e sua prática, tomados como fundamentos deste saber, só podem funcionar como tal, se atravessados por intenções de ordem ético-política e também por uma certa esteticidade. No nível da estética resgatamos a experiência afetiva como atividade sensível criativa que, em oposição à lógica simbólica ou lingüística, nos permite pensar a apreensão de uma certa realidade de semiotização a partir dos efeitos que se produzem no encontro intensivo e, portanto, sensível entre corpos. Desta forma, o desejo, que não é propriedade de nenhuma subjetividade, produz-se quando se encontram singularidades, sendo sua atividade a própria economia dos fluxos incessantes, aquém e além de uma realidade estratificada, normatizada. Tem-se aqui um saber que não reduz o sujeito às possibilidades de sua consciência, ou razão, e muito menos às possibilidades de um inconsciente submetido a "nomes próprios", pois fala de forças, de fluxos intensivos entre corpos e de transformações que se dão em um nível pré-pessoal e pré-simbólico, como via de passagem para a história, para a multiplicação das formas e nomes.

Resgatar o caráter de investigação dos fatores em jogo na constituição de um sintoma a partir do que emerge na análise implica em fazer escolhas estratégicas que acenem para a possibilidade de produzir rupturas nos efeitos normativos e patologizantes presentes nos mais variados signos da atualidade. Esta postura investigativa situa o objeto ao nível do campo subjetivo, deslocando o poder/saber de uma lógica cientificista e universalizante para uma lógica transgressiva/criadora, pois o ato clínico se coloca como um espaço de crítica à realidade em suas múltiplas formas de atualização, funcionando, assim, tanto como produção, invenção de novas realidades, como um dispositivo intensificador do pensamento e multiplicador das formas e domínios de intervenção.

Psicanálise e transformação remetem a esta borda, a esta dobra entre o sujeito e seu fora, este “entre” que cria pontos de articulação onde o sentido se produz e trans-borda: emergência de sentido onde o sofrimento é compreendido enquanto a impossibilidade de nomear o “eu” como a mínima morada que permite o nomadismo, a construção de outros e estranhos “eus”.

Entre o sujeito e tudo o mais, o que existe é sempre um campo de possíves e pensar a psicanálise como transformação e criação é também pensá-la como paixão (Leidung) e com-paixão (Mitleidung). É colocá-la no domínio da produção de singularidades a partir do que transborda, transpassa, transmuta o ser no encontro com o fora, ou seja, no “entre”. Temos, portanto, o “sein” (ser) como um “mit sein” (ser com) que emerge no “entre” como simultaneamente causa e efeito do encontro: princípio de produção de real como processualidade e criação de vidas.

Portanto, cirurgiões ou artistas? Sem dúvidas psicanalistas artistas e suas obras: vidas nem tão impotentes nem tão onipotentes, mas vidas, simplesmente, mais potentes.

Referências Bibliográficas

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1 Psicanalista em formação pelo Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul, Professora Titular no Curso de Psicologia da Unisinos, São Leopoldo/ RS, Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade Livre de Berlim/Alemanha.
E-mail: czermak@unisinos.br.


2. S. Freud, 1912, p. 157 in Czermak, 1995.
3. S.Freud, Pós-fácio, 1927, B. XX, p.146 in Czermak, 1995.
4. "Es ist als ob zwei halbe Seelen zu einer Einheit sich ergänzten. Die Gefühle des Analytikers verknüpfen sich mit den Ideen des Analysierten und die Ideen des Analytikers (Vorstellungsbilder) mit den Gefühlen des des Analysierten, auf die Weise werden die sonts leblosen Bilder zu Ereignissen und die inhaltslosen Gefühlsstürme werden mit Vorstellungsinhalt gefüllt." (Ferenczi, Ohne Sympathie keine Heilung, Fortsetzung muttueller Analyse, 19.Januar 1932 :53 in Czermak, 1995).
5. Bleichmar, 1988: 49.
6. In Czermak, (2005).
7. Ibid.
8. In Giacóia, (2001).
9. Czermak, (2003).