Surrealismo e Psicanálise

Maria Angelina Kalil Aidé
CBP-RJ

Para fazer um poema dadaísta

Pegue um jornal
Pegue uma tesoura
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar
ao seu poema.
Recorte o artigo.
Em seguida, recorte com atenção cada palavra que forma esse artigo,
e coloque num saco.
Agite suavemente.
A seguir, retire cada pedaço, um após outro,
Copie conscienciosamente na ordem, em que foram retirados do saco.
O poema se parecerá com você.

Ao que ele acrescentava com ironia: E ei-lo - um autor infinitamente original, de sensibilidade encantadora, embora não apreciado pela horda vulgar.

Tzara

No começo do século XX, a cultura européia, em seu apogeu, oferecia para todo mundo invenções tecno-científicas e novidades artísticas. Com o deflagrar da primeira grande guerra, a Europa entra em colapso e vê destruído seu poder econômico e cultural, e, instaurada, profunda instabilidade social.

Caem os valores tradicionais emergindo, em alguns paises, regimes políticos com caráter fortemente nacionalista, os quais irão propiciar, mais tarde, outro grande conflito mundial.

O período do entre-guerras caracterizou-se não apenas pela proliferação de grupos de artistas, como também pelo elevado destaque que obtinham pela atenção que davam ao aspecto teórico de suas produções, mas, ainda, pelas estratégias de autopromoção.

A criatividade artística deste período reflete, em forma de escape, a angústia, o desespero e o pessimismo, com a clara consciência de que nada voltaria a ser como antes. Sobre as nobres ruínas das formas tradicionais já cansativas da Renascença, surge uma nova arte, como resposta às inquietações então vividas. Aparecem numerosas correntes estilísticas – a nova arte -, a arte moderna, inteiramente heterodoxa, marca desta época, em uma ampla variedade de movimentos de subversão do impulso realista e/ou romântico, inclinados à abstração: impressionismo, expressionismo, vorticismo, dadaísmo, cubismo, futurismo, fovismo... surrealismo. Alguns destes movimentos chegaram e se foram sem imprimir marcas mais consistentes e duradouras. O rótulo L´Esprit Nouveau é geralmente aplicado a estes agrupamentos indefinidos, retrospectivamente, abrigando-os. Esta renovação tinha por lema a originalidade e a espontaneidade, reivindicando para arte o direito de construir por seus próprios meios, a realidade.

As obras produzidas entre 1907 e 1917, evidenciam diferenciados aspectos, segundo o amadurecimento, a sensibilidade e o estilo aos autores, sem qualquer paradigma hegemônico. É o caso de Pablo Picasso, Salvador Dali, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Mondrian, dentre outros.

Surge entre 1915/16, o movimento antiarte em Zurique e Nova Iorque, onde se destacam Marcel Duchamp, já famoso desde quando renunciara à sua fase cubista em favor dos ready-made, e, Francis Picabia, grande humorista, com seus quadros mecanomórficos. Este foi quem mais longe levou seu desafio através absurdas mistificações. Duchamp desabafou: “Quando descobri os ready-made, pensei que ia desencorajar os estetas... Atirei-lhes o porta-garrafas e o urinol à cara como um desafio e eles agora admiram-nos pela sua beleza estética”.

Em Zurique, em 1918, o artista romeno Tristan Tzara escreve um ensaio de oito páginas denominado “Dadá Manifesto 1918” que seria publicado em uma pequena revista por ele editada. Na última parte deste ensaio, sob o sugestivo título “Nojo dadaísta”, ele proclama: “todo produto repugnante capaz de tornar-se uma negação da família é dadá... a abolição da memória, dadá; fé absoluta ao inquestionável, em qualquer deus que seja produto imediato da espontaneidade: dadá, dadá... Liberdade: dadá, dadá, dadá; um bramido de cores tensas e o entrelaçamento de opostos e de todas as contradições, o grotesco, as inconsistências: vida, etc. etc...”.

Tzara batiza seu Manifesto de dadá, como evocação das duas primeiras sílabas da primeira palavra de um bebê - para representar segundo ele mesmo, que ela simbolizava a relação mais primitiva com a realidade do meio ambiente; com o Dadaísmo, uma nova realidade surge por si própria. O rótulo dadá abrigava um diverso leque de atividades e formas de produção artística, que teve lugar em diferentes cidades européias, sem um fator que as unificasse, em sua intensa publicação de panfletos e revistas nos quatro principais centros: Alemanha, Espanha, Paris e Nova York.

O primeiro manifesto celebrava a negação, a contradição, a espontaneidade, a ação destrutiva, em texto cheio de alusões, metáforas, deliberadas desordens gramaticais, caracterizando-se, sobretudo por não buscar aprovação, apresentando, ao contrário, um determinado número de idéias em retórica claramente hostil, que se justificava pela carnificina da guerra.

Os dadaístas investiam contra as formas assépticas dos puristas, especialmente ao espírito francês, considerado como prova irrefutável da decadência da sociedade burguesa. Para Dadá, honra, moralidade, família, arte, religião, liberdade, fraternidade que, em dado momento corresponderam aos ideais humanos, eram meros esqueletos de convenções, não devendo ser salvos.

No Manifesto ele dizia: “Temos bastantes academias cubistas e futuristas: laboratórios de idéias formais... havendo uma grande obra negativa de destruição a ser concluída. Nós devemos varrer e limpar”.A tonalidade maior do movimento era, seguramente, negativa: tratava-se em primeiro lugar de destruir: regulamentos, o bom-senso, a lógica cartesiana, e mais: “Nós queremos viver sem lei, sem regulamento... Nosso papel é destruir o que se fez até agora em arte, em religião, em literatura, em música... Casada com a lógica, a arte viveria em incesto”.

Tende-se a pensar o Surrealismo, termo cunhado por Apollinaire, como conseqüência direta do dadá. Existem, de fato, conexões claras entre os dois grupos pois, a maior parte daqueles que aderiram a este movimento, já haviam trabalhado juntos ou de forma independente, antes que aquele movimento emergisse em Paris.

Jovens vanguardistas, tais como, André Breton, Louis Aragon, Paul Éluard, Francis Picabia, Philippe Soupault, organizam-se fazendo-se notar através de uma pequena revista, logo após o armistício, registrando diferentes contribuições, até então esparsas em panfletos. Era a Litterature, que circulou entre 19 e 21, reaparecendo meses mais tarde com outro titulo – Litterature: nouvelle série, com poemas e críticas que pouco tinham a ver com o estilo dadá.

A nova revista apresentava um caráter conservador, tanto em seus textos, quanto em seu aspecto gráfico, todavia sendo considerada precursora como um amplo espaço onde os futuros surrealistas desenvolveriam toda a gama de recursos teóricos/técnicos de produção literária.

Em 24 é publicada La Révolution Surrealiste, cuja maior parte era editada por Breton, médico, escritor e poeta, apresentando o célebre e extenso Manifesto Surrealista, proclamando a existência do grupo. O texto longo, digressivo e florido, preconiza “a necessidade de uma nova declaração dos direitos do homem, visto como” sonhador definitivo “, cada dia mais desgostoso com seu destino, que a custo repara nos objetos de seu uso habitual e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou, pelo menos não lhe repugnou tomar essa decisão. Bem modesto agora é seu quinhão. Sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu. A sua riqueza ou a sua pobreza para ele não vale nada. Quanto a isso, continua recém-nascido e, quanto à aprovação da sua conduta moral, admito que lhe é indiferente... A pretexto de civilização e de progresso, conseguiu-se banir do tudo que se pode tachar, com ou sem razão, de superstição e de quimera. A proscrever todo modo de busca da verdade conforme ao uso comum. Ao que parece, foi um puro acaso que recentemente trouxe à luz uma parte do mundo intelectual e a meu ver, a mais importante e da qual se afetava, não quer saber. Agradeça-se isso às descobertas de Freud. Com fé nestas descobertas, desenha-se afirmar uma corrente de opinião, graças à qual o explorador humano poderá levar mais longe as suas investigações, pois que autorizado está a não ter em conta as realidades sumárias...”.

Desde o início, o Surrealismo era um movimento heterogêneo, constituído de pintores, poetas e fotógrafos e, no final dos anos 20, diversificando-se na produção de objetos e filmes.

Numerosas revistas usadas como plataforma de debates, sem qualquer unidade de estilo, evidenciando nas práticas de cada um, a característica básica do movimento – a da diversidade e da diferença, caracterizando um campo representacional em constante mudança.

Um dos modos expressivos do Surrealismo em relação à diferença, e pela sua metáfora central do feminismo, quer no trabalho dos homens como naqueles das mulheres artistas, com base em fantasias do moderno, assegurando a suprema vitória de tudo que vem do sistema feminino em oposição ao sistema masculino. Outro aspecto crucial para o grupo era a visão da sexualidade moderna, um ponto que os atraia em Freud. O primeiro manifesto havia deixado em aberto, o grande interesse que tinham pelo “psico-automatismo no seu estado puro”, que deveria ser expresso tanto em palavras, quanto por qualquer outro meio, sempre fazendo apelo à ambigüidade, desde que, a imagem deveria mostrar, em fragmentos, o corpo interiro, de um fragmento a outro, sendo cada indício destituinte do anterior. Situação que corresponde à idéia de Breton acerca deste movimento como um estado de completa perturbação mental. Para eles, as mulheres estavam mais próximas daquele “lugar da loucura”, do inconsciente, do que os homens. E é de acordo com uma construção particular da “mulher”, como “musa” do poeta e, da mulher como o “outro”, são motivos recorrentes.

A sexualidade, o erótico e a máquina combinam-se, como forma de combate à visão racionalista da modernidade.

O modo como lidavam com a estrutura simbólica, complica-a com o imaginário; a palavra na poesia não é apenas uma palavra: ela produz milhares de associações, evocando uma trama de formas e significados flutuantes e interconectados, situando o interesse artístico no caráter formal e material do “objeto constituído”, não na linguagem da alma, possuindo uma semântica específica, numa tentativa de traçar uma “similaridade” estrutural entre os sistemas de “arte e de linguagem” em primeiro lugar e, em segundo, deixar claro como a arte difere da linguagem.

Em 1914, na História do Movimento Psicanalítico, Freud comenta que “entre os paises europeus, a França era o menos receptivo à Psicanálise.”

É de observar-se que o freudismo aparece naquele país primeiramente no meio artístico, em especial na literatura de Breton, Aragon e Souppault. Este fato explica o capítulo com o qual Roudinesco inicia o volume II de seu alentado “História da Psicanálise na França – A Batalha dos Cem Anos, ou seja – O Surrealismo a Serviço da Psicanálise”.Aparentemente curioso, vez que é aquele movimento artístico que se vale das hipóteses freudianas. Explica-se, entretanto, quando a autora assinala que “pelo lado literário, a Psicanálise tende a ser reivindicada como a expressão de uma descoberta autêntica, ao passo que, do lado médico, ela é adaptada aos ideais de um suposto espírito latino ou cartesiano...” “Quando os escritores descobrem as idéias freudianas, lêem nelas algo diferente do que lêem os médicos ou psicanalistas”.

Com apoio no artigo de Freud, “A Questão da Análise Leiga”, o meio literário veicula uma representação não médica da Psicanálise, abrindo a este novo campo do conhecimento “o clube dos doutores” dentro do Surrealismo – Breton, Aragon, Fraenkel. Todavia, esperando um corte radical entre ela e a medicina, na apologia de um primado soberano do inconsciente, opondo-se às idéias do “inconsciente à francesa” de Pichon, Hesnard e Laforgue. Entretanto, não se objetivava clinicar. Aragon caracterizou como “uma mitologia do moderno”, em sua crítica à ordem social, à cultura dominante, vista pelo grupo como repressiva. Pensamento que não é alheio a Freud, haja vista seu texto de 1908 “Doença Nervosa e Moral Civilizada”.

Em 1907, Freud residindo em Roma, em férias, a cidade maldita e admirada, dissolve por carta, a organização da primeira sociedade de Psicanálise, o que produziu um efeito contrário a seu desejo: nenhuma deserção importante aconteceu dentre os 22 membros do Círculo das 4ªs Feiras, ao menos entre os mais importantes.

Roudinesco comenta que, tal dissolução “permitiu-lhe criar a aparência (grifo da autora), de estar desatando laços que logo se reconstituiriam, mas ao mesmo tempo, testemunhou uma tentativa de assegurar a Psicanálise, um reconhecimento simbólico...” Para ela “todos os momentos históricos que recorreram à dissolução pretendiam-se essencialmente de vanguarda” e “dois exemplos históricos atestam isso: a dissolução da Internacional Socialista por Lenin, em 1914, e a autodestruição do grupo dadaísta em 22, 24. Mais um exemplo: Tzara, em 27, em seu desejo de destruir até mesmo as ”idéias“, acusando os pintores de ”academismo“, reivindicando que as obras de arte deveriam ser ”para sempre incompreendidas”, proclama: “Fui eu mesmo que matei dadá, voluntariamente, porque considerei que um estado de liberdade individual tornou-se no fim um estado coletivo”.

Morte antecipada já em 24, por ele mesmo: “os amigos e conhecidos de Dada, morto na flor da idade de uma literaturite aguda se reunirão, etc, etc...” (Roudinesco, ib.).

Manifesto de imediato seguido pela primeira publicação surrealista de Breton, já aqui referido.

Por esta época não mais vigora a ênfase nos conceitos de hereditariedade e degenerescência surgidos da psiquiatria dinâmica, inaugurando uma nova visada sobre a loucura, agora entendida como criativa, nas pegadas de Charcot, o qual buscava nas obras pictóricas antigas, provas de sua concepção sobre histeria, sem ver, como Freud que era sim, uma obra de arte, mas deformada.

Charcot não é levado em conta pelos psicanalistas franceses de então, diversamente dos surrealistas que o privilegiam, vendo na histeria um ato poético. Roudinesco cita homenagem que em1928, Aragon e Breton fazem à passional Augustine: “nós os surrealistas, fazemos questão de celebrar o centenário da histeria, a maior descoberta poética do fim do século e isto, no exato momento em que o conceito de histeria parece uma coisa consumada” (ib.). Eles a propõem como meio supremo de expressão.

O movimento investe contra os hospícios, comparando-os com a caserna ou a prisão, exigindo a abertura dos asilos, legitimando o caráter genial de certos loucos.

Os psicanalistas dessa época, mantém relações diversas, de um modo geral, através da psicobiografia da arte. Jean Frois-Wittmann é o único analista da primeira geração a publicar em revista surrealista, dando uma definição do “normal”: aquele que se conduz como se tivesse sido psicanalisado. Por fim, considera que “Os Cânticos de Maldoror” de Lautréamont – Isadore Ducasse – uma verdadeira bíblia do inconsciente, com seus méritos de pensamento associativo e suas complexidades, acrescentando que “o surrealismo, a psicanálise e um certo socialismo, ainda que se ignorem mutuamente, formariam um sistema unitário necessariamente coerente” (ib.).

As opiniões variam: Allendy considera o movimento, eco de seu próprio caminho; Crevel se interessa por Artaud, tendo Leiris e Bataille como analisandos; Borel estuda os sonhadores, não os sonhos; Hesnard compara a concepção irracional dos surrealistas ao inconsciente freudiano, recomendando que a psicanálise francesa deveria inspira-se nele, etc, etc.

Central no surrealismo é automatismo mental, traço que o separa do dadaísmo, síndrome que permite a Clérambault, mestre de Lacan, compartilhar da hipótese que existe grande proximidade entre a loucura e a verdade. A escrita automática consiste em abstrair a realidade externa e, ao mesmo tempo, ao alienar o próprio eu, excluindo qualquer possibilidade de censura, permitir o surgimento da voz inconsciente, obtendo um discurso livre do controle da consciência. De acordo com Breton, o automatismo remete a uma noção de subconsciente freudiano, mas, na medida em que libera uma forma anônima de expressão universal, desfaz a idéia cartesiana segundo a qual a linguagem seria propriedade de um sujeito. O automatismo para os surrealistas aparece como um instrumento de descentramento ou de desestabilização do sujeito, o qual não mais se reconheceria na certeza de si.

Em 1921, Breton vai ao encontro de Freud em Viena. Este o recebe em horário de consultas, à tarde. Após uma considerável espera, entediado, encontra-se frente a “um velhinho sem porte”. Constrangido, Breton fala em Charcot, Babinsky, saindo desanimado por Freud tê-lo respondido de forma banal. Ele finaliza a entrevista com o comentário: “Felizmente, nós contamos muito com a juventude”.

Em 1937, o Poeta propõe a Freud que se associe à publicação de uma antologia, Trajetória do Sonho, a que ele responde, sem compreender: “sem as associações que a ele se vêm acrescentar, e sem o conhecimento das circunstâncias em que o sonho teve lugar, tal antologia, para mim”, escreve ele, “não quer dizer nada, e mal posso imaginar o que ela possa querer dizer para os outros”.(ib.). Breton não responde e, prestes a imprimir o livro, fica sabendo da prisão de Freud pelos nazistas, publicando, na primeira página, um grande elogio a Freud, “espírito verdadeiramente goethiano”, que, aos 82 anos caíra sob os punhos dos brutos. Seis meses mais tarde, em carta a Zweig, ele se expressa pela última vez acerca do surrealismo: “Preciso realmente agradecer-lhe pelas palavras de apresentação que trouxeram a mim os visitantes de ontem. E que até então, ao que parece, eu me sentia tentado a considerar os surrealistas que aparentemente me escolheram como santo padroeiro, como totalmente loucos (digamos, noventa e cinco por cento, como o álcool absoluto”. (Roudinesco, 1986)).

Dali conheceu Freud, por intermédio de Zweig, exilado em Londres, tendo recebido dele, explicações sucintas acerca do caráter erótico e eficaz contido nas superstições, junto às forças ocultas. O que o leva a carregar, confessadamente, um pedaço de madeira que nunca o deixa. Pinta-lhe o retrato e jamais deixará de referir-se à sua genialidade.

Se Freud não mostrou o menor entusiasmo pelo movimento, Lacan conviveu com o grupo, participando de algumas idéias, ao menos no inicio de sua prática. Nos Escritos, em breve nota intitulada “Sobre Nossos Antecedentes” ele, evocando os nomes de Crevel e Dali, qualificará o Surrealismo de “nova pousada”, onde sua tese de doutorado foi acolhida. Dali e Lacan são amigos. Roudinesco relata o insólito diálogo entre ambos, em Nova York, após um jantar: “Eu faço nós”, diz o psiquiatra. “Ah sim! As ilhas borromeanas”, responde o pintor. Lacan pega um guardanapo de papel que Dali se apressa em retirar-lhe das mãos: “Deixe-me fazer, isso deve ser desenhado em uma certa ordem, senão não funciona, não se separa. Aprendi tudo na Itália. Se você for ao túmulo de Carlos Borromeu, vai entender...”.

Mais tarde, evocando o famoso encontro sobre a paranóia crítica, Dali exclama: “Por que você não disse nada quando nos vimos e eu estava com um esparadrapo no nariz?” Porque eu sabia perfeitamente que você não tinha nada “. É fantástico, você foi o único a não dizer nada!” E, os dois saíram a andar por Manhattan, ela conclui (ib.).

Outros traços demasiadamente humanos para o grupo, são a sordidez, a crueldade, o monstruoso, o lúgubre, como sondagem das profundezas do escondido, do secreto, do não familiar, sendo o Marquês de Sade considerado o mais livre de todos os espíritos até então.

Os surrealistas não se interessam pelo “Além do Princípio do Prazer”, traduzido em França em 1927. Contudo, pelo entendimento que têm da condição “passiva” do destino suicida, defendem a morte voluntária, fascinados pela sedução da morte, buscando no texto freudiano, suporte, com base na energia mortífera da pulsão de morte. Assim, o primeiro número da Revista Surrealista, inicia-se com a pergunta: “Será o suicídio uma solução?”, e, prosseguindo, “A gente vive e morre. Parece que as pessoas se matam assim como sonham. Não é uma questão moral que estamos colocando”.

Freud, após ter concluído este texto escreve a Eitington: O Além está finalmente terminado. Você pode confirmar que ele já esta semiconcluído na época que Sophie estava viva e florescendo...”O que evidencia sua preocupação com aqueles que iriam invocar a carnificina da guerra, o medo de um câncer eventual e as duas perdas por ele sofridas, a de sua filha e de seu amigo, Anton von Freund, a motivação para esse importante artigo”.

Para eles a idéia do objeto como fetiche consistia na arte africana ou da Oceania, que colecionavam e exibiam e não, um substituto de algo sexual como em Freud.Apenas um objeto obsessivo, fruto de uma fixação elegante.

Assim como Freud colecionava objetos, como o modelo em gesso “Gradiva”, Lacan também o fez. Participava de sua coleção a estatueta de uma prostituta romana, reproduzida no livro de Bataille, “O Erotismo” e ainda, pinturas de Masson, Jogo Lúgubre de Dali.

Por outro lado, Freud tomou a poesia como modelo do sonho e não este paradigma daquele, o que fica claro pelo uso da expressão “o trabalho do sonho”. Nas minutas das sessões das quartas-feiras ele declara: “sempre que uma realização está em causa, não temos o direito de colocar a neurose em primeiro plano”.

A criação é superação do patológico

O sentido do estranho, idéia presente no grupo, envolve o oposto da concepção freudiana do Umheimlich; chamado por Breton “dépaysement”, embasa, ainda, o movimento, associada à indeterminação das imagens oníricas, e nas demais representações com limites demarcados. “Lúgubre é, de fato, uma das palavras que Freud usa, equivalendo a termo alemão, inspirando a pintura de Dali”, O jogo lúgubre “, utilizando a narrativa do sonho, justapondo elementos incongruentes e formas monstruosas, dentre motivos diversos”.

Um dos interesses constantes do Surrealismo é a mulher criminosa, através da qual exaltam a passionalidade, tão frágil quanto perigosa, na particular visão que propõe acerca feminilidade. O assassinato pela mulher louca é visto como um ato heróico, elogiado nas figuras de Violette Nozière, mitômana e parricida, as Papin, a Augustine, a jovem paciente de Charcot, fotografada em uma série de estados involuntários denominados “Attitudes passionelles, exemplos que irão ecoar no jovem Lacan, no exame de Aimée. Convém destacar que ele deixa claro em sua famosa tese de doutorado, de 32, que” se a psicanálise não foi posta em prática com nossa doente, esta omissão, que não se deve à nossa vontade, delimita ao mesmo tempo o alcance e o valor de nosso trabalho “. (Lacan, 1987).

O melhor exemplo é a Nadja de Breton, a mulher revoltada, criminosa, paranóica e homossexual, encarcerada num asilo, uma horrenda história, celebração da desordem psíquica da mulher. Homenagem ao primitivo como o mais próximo da desrazão, como o constante “outro”, condição que os surrealistas aspiravam e exaltavam como lado “feminino” da personalidade que havia sido reprimido. A representação de Nadja é a chave estrutural da fantasia bretoniana. Ela não é uma mulher real, senão a musa, objeto de seus desejos, como ele dirá mais adiante em seu livro, pela fala de sua personagem: “Se você quiser, posso ser nada para você, ou apenas um vestígio”.A fantasia requer que ela não seja mais a roupeira miserável, vitima de seus sintomas, mas, um espírito livre, heroína de um novo tempo. (Fer et al, 1993).

A beleza será convulsiva, ou não será, a última fala de Nadja, onde Breton deixa claro seu ponto de vista: a resposta estética está integralmente ligada à sua expressão de prazer erótico, onde a beleza “horrível e comestível” será tematizada no artigo ilustrado por Dali e publicado em Minotaure. Nesta revista, Lacan colabora em seu primeiro número com o artigo “Os problemas do estilo e a concepção psiquiátrica das formas paranóicas da experiência”. Entretanto, Dali considera “a beleza apenas o grau da consciência de nossas perversões”.

Nadja irá merecer um ensaio de Benjamin, em 1929, denominado “Surrealismo: o último instantâneo da” intelligentsia “européia” onde discute o interesse do grupo pelos objetos que começavam a serem extintos por obsoletos, acrescentando que, “no antiquado, escondiam-se” inúmeras coincidências que assombravam “no centro do mundo das coisas, está o mais sonhado de seus objetos, a própria cidade de Paris”. Roudinesco examina em detalhes as controvérsias em que se envolvem Dali, Bataille, Masson (autor da Gradiva pintada em 1939 e inúmeras vezes por Dali), Breton, Souppault, os psiquiatras e psicanalistas, nestes anos entre-guerras, Picasso, Magritte, Baudelaire, Artaud, Lautrèamont, Apollinaire, Rimbaud, dentre muitos outros.

Nos Escritos, Lacan cita Breton, Crevel, Queneau, Prévert, e o seu amigo Dali.

No entanto, cumpre ressaltar a considerável distância que separam as duas concepções acerca do inconsciente. Diferença óbvia na declaração de Breton, em seu primeiro Manifesto; Freud é o responsável por trazer à luz aquela parte do nosso universo mental à qual “fingíamos” não estar conectados. Fica claro o desconhecimento acerca do recalque, pedra angular da psicanálise, levando pensar na possibilidade da auto-análise, e, não, a existência do inconsciente substantivo.

Outro diferencial é o equivocado entendimento a respeito da associação livre, regra fundamental da práxis analítica que Breton registra ter tentado com seus pacientes. Lacan é enfático: tal associação nada tem de livre, sendo absolutamente multideterminada. Em uma análise, objetiva-se os mínimos elementos significantes, os mais fundamentais, repetidos, as hesitações, a eloqüência dos silêncios, na ilusão detida pelo analisando, do sem censura de sua fala.

Se para a Psicanálise a verdade é tão somente semi-dita, o desejo surrealista é o de totalizar, ou seja, preencher lacunas visando atingi-la. Fiquemos por aqui, ressalvando apenas, que o Surrealismo a seu modo, manteve a premissa de Freud no enigma, no Das Ding, verdadeiro vazio criador, limite do insondável na alma humana.

Referências Bibliográficas

- Bartucci, G. -(0rg.), Psicanálise, Arte e Estéticas de Subjetivação; Imago Ed., RJ. 2002;
- Berenson, B. - Estética e História; Ed. Perspectiva, SP, 1972;
- Bourdieu, P. - As Regras da Arte; Cia. das Letras, SP, 1996;
- Bradbury, M. e Mc Farlane, Y. - Modernismo – Guia Geral, Cia. das Letras, SP, 1989;
- Descharnes, R. e Neret, G. - Salvador Dali – Tarchen - Printed in Italy, 1989;
- Eco, U. - A Definição da Arte; Elfos Ed., Ed.70, Lisboa;
- Fer, B.; Batchelor, D.; Wood, P. – Arte Moderna – Práticas e Debates - Realismo, Racionalismo – Cosac & Naify Ed. Ltda, SP,1993;
- Freud, S. - A História do Movimento Psicanalítico, Obras Completas, vol.XIV, Imago Ed, 1974;
- Correspondência de Amor e Outras Cartas – Nova Fronteira, RJ, 1982;
- Giannotti, J. - O Jogo do Belo e do Feio – Cia. das Letras, SP, 2000;
- Granger, G. G. - O Irracional – Ed. Unesp, SP, 2002;
- Lacan, J. - Da Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade – Forense Universitária, RJ, 1987;
- Merquior, J. G. - O Fantasma Romântico e Outros Ensaios - Ed. Vozes, RJ, 1980;
- Paz, O. - O Arco e a Lira - Nova Fronteira, RJ, 1982;
- Quinet, A. (org.) - Jacques Lacan – A Psicanálise e suas Conexões. – Imago Ed., RJ, 1993;
- Ramos, M. L. – Interfaces – Literatura, Mito, Inconsciente – Cognição Ed. UFMG BH, 2000;
- Rosenfeld, D. L. (org.) – Ética e Estética, RJ, 2001;
- Roudinesco, E. – História da Psicanálise na França – A Batalha dos Cem Anos, Vols. I e II, Jorge Zahar Ed., RJ, 1986 e 1988;
- Wolfflin, H. - Conceitos Fundamentais da História da Arte, M. Fontes, SP, 2000;
- Wood, P., Franscina, F. et al – Modernismo em Disputa- A Arte desde os Anos Quarenta - Cosac & Naify Ed., SP, 1998.

* Psicóloga, Mestre em Psicologia – UFRJ, Sócio Psicanalista do CBP-RJ.