Carta aos psicanalistas do ano 2100

Emílio Rodrigué
Unitermos: Psicanálise

Resumo:
O autor faz um comentário crítico da psicanálise de hoje, utilizando uma correspondência fictícia com um destinatário do futuro.

Querido João Heráclito.

Fantástico!

Felicitações: conseguiram, remontaram o rio da historia. Vocês são os ciberargonautas, alquimistas temporais navegando no túnel do tempo. Já em minha época se especulava que era possível comunicar-se com o passado. Supervisionar a história com um marca-passo. Mas ninguém pensava que isso aconteceria tão cedo e que eu seria um dos corresponsais escolhidos do passado. Talvez essa seja a parte mais surpreendente desta história. Estou orgulhoso de vossa escolha e com toda razão. Imagine! Também confesso que me aliviou saber que a psicanálise continua viva no Século XXII, coisa que muitos de nós duvidávamos. Porque houve uma crise na psicanálise em meu século a partir do maio francês de 1968, momento em que Marx morre, esquecido, e Freud, mal ferido, foi salvo por Lacan, numa ruela do Quartier Latin.

Mas quero saber mais. A psicanálise está bem viva mesmo? Mais viva que os Sistêmicos? É bom saber que ela ainda é uma psicotecnologia de ponta. Desejaria perguntar-te sobre mil pequenas coisas de nosso oficio: número de sessões, duração das mesmas, honorários. Cobra-se quando o paciente falta à sessão? Ainda existe o divã? A IPA? Salvador segue sendo um centro importante? A depressão ainda é a doença dominante? A psicanálise teve uma nova Melanie Klein, um novo Lacan? Alguns analistas continuam trepando com suas pacientas? Proliferam os cismas? Como se foi desenvolvendo o que Derrida denominou o "Pathos eletrônico?" Se usa a análise via Internet? Ainda existem os cognitivos?

Mas estou curioso além da psicanálise. Ainda se fala português? Ainda existem os colégios, as prisões, as fábricas? Vais ao cinema? Teatro com atores no palco? Circo com palhaços? Telenovelas da Globo? Como vocês fazem sexo? Quem ganhou a última Copa do Mundo? Não acredito que possa ser o Brasil uma vez mais! Quando se superou o HIV? Todavia existe o câncer? Se seguem usando giletes? Qual é a expectativa de vida no século XXII? As velhinhas vivem mais do que os velhinhos? Qual é o índice de Qualidade de Vida?

O termo qualidade de vida se expandiu quase como um vírus nos últimos 15 anos. Palavra nova. N.Rescher rastreou suas origens para descobrir que nasceu em 1964, na boca do presidente Lyndon B. Johnson, proferido num discurso em Madison Square Garden, quando diz:

"Nossas metas vão mais além das contas bancárias. Só podem ser medidas pela qualidade de vida de nosso povo".

Ou seja, a felicidade tem que ser tomada em conta. A noção de felicidade, segundo André Burgière, nasce no três de março de 1794 quando Saint-Just, o Anjo da Morte, a considera uma idéia nova em Europa. Ela chegou como um invento tardio. A fome, as pragas, os miasmas minguaram. Ou seja, a qualidade de vida começou a melhorar a começos do século XVIII, século que se ilumina com os enciclopedistas na França e com a grande figura do utilitarismo, Jeremy Bentham. O bom e o útil para o maior número de pessoas. Bentham predica um sofisticado hedonismo social, criando os parâmetros da qualidade de vida. Nasce o burguês. A felicidade é uma novidade como uma exceção: Aristóteles pensava nessa direção faz 2.200 anos, quando se preocupa pela eudaimonia. Mas não posso deixar de me lamentar, pensando a história da humanidade, que perdemos 2200 anos de felicidade. É bem possível que a Grécia do quarto século antes de Cristo, ajudada pelas correntes asiáticas, chegou a antecipar a noção do bem comum, da felicidade; para os não escravos. Mas depois vem a massificação totalitária de Alexandre o Magno, o imperialismo Romano, os bárbaros, a Idade Media, a Inquisição. A coisa ainda estava muito ruim em 1600 quando queimam Giordano Bruno, não por seu homossexualismo, senão por seu desvio heliocêntrico. Logo vem a recuperação com Spinoza, Montaigne, Descartes, talvez Voltaire, até chegar a Saint-Just que, oh surpresa! Descobre a felicidade.

E aqui vem uma asseveração que pode custar-me alguns amigos: creio piamente que o século XX, estatística, política, social, econômica e epidemiologicamente falando, foi bem superior em qualidade de vida, a todos os séculos anteriores, e em todas as camadas sociais de Ocidente, com a possível exceção desse século IV antes de Cristo1 . Feminismo, Sindicatos, Saúde Pública, Educação Pública, Black e Gay Power, rádio, TV, psicanálise e a pílula. Conseguimos que um quarto da humanidade leve sua vida acima da linha de flotação sub-humana. Antes de 1773, 85 % vivia embaixo dessa linha, boqueando de fome. Facts are facts. Não é questão de jactar-se, porque o século passado, sejamos sinceros, foi um século de merda. Mas, assim e tudo...

Voltando à psicanálise. As coisas vão mudando com o correr dos anos. Podemos nos perguntar, por exemplo, se interpretamos a sexualidade infantil do mesmo modo que nos tempos de Freud. Nesse sentido, lhe damos a mesma importância ao tratamento das resistências e intervimos ainda sobre a forma denominada de interpretação, ou nossa palavra se enuncia hoje em dia de uma forma diferente? De uma forma mais direta, talvez. Mais pós-moderna como disse Radmila Zigouris. Menos oracular. Pergunto-me também se o acento posto na castração não levou nossa prática a muitos desastres. Este conceito foi utilizado de uma forma mais pedagógica que analítica.

Na verdade, o complexo de Édipo já não assusta mais a ninguém. Hoje em dia, só o mafioso Robert de Niro se horroriza quando o analista Billy Chrystal lhe interpreta o desejo incestuoso por sua mãe. Nesse senso, Jacques Lacan disse "Numa palavra, todo o esquema do Édipo deve ser revisado". Eu acho que a crítica mais séria foi feita nos anos 70 por Deleuze e Guattari e posteriormente por Foucault, levantando o problema do poder como curinga planetário. Em suma: desde o momento que toda a cultura se edipizou todo o comércio cultural "se desenvolve como um drama quase burguês entre o pai, a mãe e o filho", ou seja, o Édipo é a forma étnica e não universal em que a família se organiza na sociedade burguesa. Por outra parte, ou fato, como tu me contas, João Heráclito, de que os pais de teu século modelam o perfil genético dos filhos, me leva a pensar que a velha filogenia acabou e que não existe mais o acaso do id. Podemos falar de um inconsciente autônomo?

A psicanálise - temos que admitir - é aquilo que os analistas decidem que ela seja. Na medida em que não existe a psicanálise sem uma prática, esta é fundamental não só para uma clínica concomitante, mas porque ela é portadora de todas as questões teóricas fundamentais. As questões fundamentais não podem mais sair dos próprios textos. Que a psicanálise seja também um amplo campo de reflexão, vem em acréscimo. Não há que confundir prática e clínica. Narrar as historias clínicas é uma coisa, a maneira como se trata aos pacientes, os dispositivos terapêuticos, tudo o que constitui a prática de um analista é outra coisa. São as práticas as que hão mudado.

Entre a teoria e a prática não existe continuidade nem relações unívocas. Pode dizer-se que não ha relação teórica do mesmo modo em que pode dizer-se que não ha relação sexual.

Pode ser, por outra parte, que toda conceitualização reconhecida a um nível de dignidade teórica nova ameace aos petimetres locais que são os detentores da transmissão dos saberes constituídos.

Eu acredito, com tudo, que a psicanálise em Salvador vive num certo resguardo. Aqui, graças a Deus, não temos que submetermos aos ditames das multinacionais psicanalíticas que decidem sobre que é psicanálise e que não é. O divã conta ou não conta? A bobagem de se uma sessão semanal é psicanálise ou só psicoterapia. Como disse Radmila Zigourni em sua palestra nos Estados Gerais, a psicanálise está presente quando há um analista disposto a manter uma transferência. Coisa, João Heráclito, que não é fácil. Estarias de acordo, João Heráclito, com a seguinte reflexão: a psicanálise está presente toda vez que um analista é capaz de sustentar uma transferência?

Sabes, João Heráclito, o que é um Frankenfish? Parece ser que os Frankenfish são Frankensalmões. A última palavra na genética do aquário. Uma nova cepa mutante de salmão que cresce seis vezes mais rápido que nosso delicioso salmão do sushimi e que pesa pelo menos 15 vezes mais. Um frankenstein. Com o supersalmão o salmão custaria um décimo do salmão atual e si depois do frankensalmão apareceria um frankenvermelho e uma frankensardinha, os frutos do mar baixariam estupidamente.

Mas sempre aparece um mais. Os ambientalistas, alarmados, dizem que o supersalmão encerra um grande perigo ecológico e que solto pelos mares pode desestabilizar a fauna marinha. Agora sabemos que cada invento tem seu contra. Antes não era assim. A coisa começou com o DDT em 1943. Quando o DDT entrou, na guerra do Pacífico, todo o mundo pensava que os insetos já eram, e ninguém pensou que se tratava de um frankeninsecticida com graves conseqüências tóxicas. Acontece que cada invento tem um doble filo e, se se pensa bem, até a faca tem um doble filo: serve para operar e para destripar.

Acredito que a gente agora está mais que curada de espanto. O século XIX viveu deslumbrado com os frutos da ciência. A poluição prática e politicamente não existia. A palavra ecologia foi cunhada em 1952.

Então, podemos generalizar, todo adianto vem com um risco. Tomemos o caso da psicanálise. Freud em seu artigo Análise terminal e interminável disse que a psicanálise criou condições inéditas no homem. Ela criou um perigoso Homem Novo. Estou convicto de que nos oito anos em que fui analisado, mais os 55 em que analiso, mudaram as fibras mais íntimas de meu ser. Sou um outro, sou diferente. Não será que sou um frankenemilio? Trata-se do tema do Homem Novo ou se se quer, do Super-homem. Fantasma frankenestenico do século XIX. Philip Rieff, analista e filósofo americano assinalou que a psicanálise é a técnica mais sofisticada para a produção de transformações psíquicas, mas que é um instrumento essencialmente egoísta. Acredito que Freud inventou uma nova forma de pensar, decorrente do uso sistemático da associação livre. Freud criou o Homem Metonímico. É utópico pensar que, porque estamos analisados, somos melhores? Acho que sim.

Essa transformação frankenstênica também se dá no nível grupal, no nível das instituições. Não existe uma população mais cismática que a nossa. Na realidade houve duas fases na história do movimento analítico. A primeira foi herética; a segunda, cismática. A primeira, com Jung, Adler e Stekel na cabeça, começa a partir de 1910. A chamo herética porque seus protagonistas acreditavam que existiam sérias dissidências teóricas e os hereges caíam fora da grey e concordo com Rieff em que a ortodoxia era a heresia dominante. Agoura, a partir do que Lyotard denomina o "acontecimento Lacan", as escolas proliferam como cogumelos, seguindo uma lógica rizomática e uma aceleração exponencial, condizente com os tempos. Estes cismas são muito sutis e interessantes, mas algumas cepas frankenmillerianas são altamente venenosas.

Seria de interesse fazer um levantamento dos grupos analíticos em existência hoje em dia. E aqui entra um fio extra em nossa faca: o uso da transferência, da frankentransferência. Somos um perigo ecológico.

Como tu sabes, acabamos de enterrar nosso velho milênio, meu milênio, meu século que foi o Século de Freud. Ele nos aproxima, imagina, eu sou de 1923, tinha 26 anos quando Freud morreu. Poderia ter tomado um schnapps com ele em Maresfield Gardens. Freud foi a Cruz do Sul de nossa centúria. A grande aventura da alma. Mas quando comecei, aos vinte anos, ser analista era uma profissão bizarra, quase como cabeleireiro de cachorros.

Lembro de uma anedota. Quando comecei a assistir seminários, em 1947, a APA tinha um local pequeno com uma sala onde cabiam umas 15 pessoas. Eram os tempos de Peron e os seminários só podiam ser dados se um policial, de pé, estava presente. Então, nosso divertimento era escandalizar ao homem da lei. A dito fim, por exemplo, líamos em voz alta o trabalho de Garma que dizia que a Virgem era uma puta, que a luz no presépio era o farol do lupanar e que os Reis Magos eram os clientes. O policial abria olhos bem grandes.

Há tantas perguntas que queria te fazer? Por exemplo, existem analistas junguianos em teu tempo? Confessarei que nós devemos muito a Jung no que diz respeito à análise dos sonhos. É incrível como a história esquece seus filhos que uma vez foram celebridades. Janet era o maior psicoterapeuta do mundo em 1900. Mas acontece que, como um passe de mágica, Janet foi borrado do mapa. Esse esquecimento, amargo, cruel e ingrato me intriga. Que passou? Considero que Janet foi eclipsado pela gigantesca sombra de Freud. Os grandes homens, como as árvores frondosas, são assassinos por sua própria natureza, nenhum rival cresce sob sua sombra. Outro exemplo, Adler com sua rede de clínicas em Viena, nos anos 20 era quase tão conhecido como Freud. Hoje em dia, que eu saiba, só existem dois adlerianos em Tel Aviv. À propósito, os judeus seguem guerreando com os palestinos? Islã vem castrar a cidade de Nova York, marcando o inicio da decadência do Império Americano. Você não vai acreditar, mas fiquei feliz quando soube que tu não sabias quem era George Bush.

Sim, a história é uma velha puta amnésica que esquece seus velhos amantes. Por isso me surpreendeu e me encantou ser recordado depois de morto. Pensar que um exemplar de meu Freud está na Universidad de Salamanca! Pensar que em meu tempo, pouca gente sabia o que era a terapia de uma sessão, conhecida como "sauna" e que agora, em teu tempo, é bem conhecida. Mudando de assunto, tenho que confessar, João Heráclito, que estive tentado a perguntar-te sobre a data de minha morte. Mas que não te ocorra passar-me o dato necrológico. Cruzes!

Também me dou conta de porque estou escrevendo mal. Pareço um colegial redigindo uma composição sobre Os Homenzinhos Verdes de Marte. É como se o assunto fora maior do que eu. As perguntas me atropelam. O responsável és tu. Você se transformou, usando o jargão analítico, numa espécie de Grande Outro telequinético. Sinto-me analisado pôr ti. Temo que se reflita em mim a neurose de meu tempo e que me vejas como um antepassado bárbaro responsável por mil prováveis desastres ecológicos que minha geração causou, porque constato que em tua carta falas muito pouco sobre a "qualidade de vida" de teu tempo. Vocês ainda têm atmosfera? Escasseia a água, o oxigênio? Vocês estão melhores ou piores do que nós? E não posso ganhar, porque sentiria inveja se estão melhores e culpa se estão piores. Constato que carrego um macro conflito geracional. Estou competindo com meu tatatataraneto.

Retornando à realidade do divã, como está o tempo da sessão? Nos tempos de Freud as sessões duravam 50 minutos e logo o tempo se foi encurtando de 5 em 5 minutos. Os lacanianos, com seu tempo lógico, chegaram a estabelecer horas topológicas que podem durar de 2 minutos a [em teoria] 2 horas, porém acho que horas de 10 a 15 minutos são a média. A lógica do tempo lógico é enorme, já que rompe com o tic-tac da rotina. Parece-me uma idéia admirável, mas não posso segui-la, porque pronto eu seria um analista corrupto, roubando minutos o tempo tudo. Porque, João Heráclito, há sessões que são insuportavelmente cansativas. Os consultórios estão vazios. Agora tenho poucos pacientes, razão pelo qual escrevo tanto. Antes eu tinha poucos pacientes por uma saudável tomada de posição, por um assunto ideológico de saúde mental ou talvez de sabedoria, onde se dá à praia, ao livro e à exposição ao sol seu lugar. Uma boa vida, ah. Nos últimos anos os pacientes simplesmente não chegam no ritmo habitual. O que me preocupa porque, como a cigarra de La Fontaine, não tenho comida estocada para o inverno.

Suspeito que as vacas magras dos analistas está generalizada e encoberta e, como nos tempos de Groddeck, dissimulamos nosso declínio e aparentamos ser o que uma vez fomos. A psicanálise está em crise. O ensaio da Roudinesco sobre a psicanálise na França é alarmante. Os 80 % dos analistas têm menos de 10 pacientes e nos Estados Unidos nem se fala. É sumamente difícil analisar um paciente rico que quer nos abandonar. Pichon Rivière costumava dizer que os psicanalistas são os "cafishos da angustia". Razão demais para saber como estão as coisas em teu tempo.

Estou imaginando um assustador cenário possível. Nele o planeta Gaia, depois de haver-se analisado por mais de um século, se levanta do divã, dá a mão ao analista e diz:

__ Obrigado, doutor, muito obrigado por tudo.

O planeta Gaia, talvez com uma lágrima, cruza o consultório e vai embora. A ilusão transferencial deu tudo o que tinha que dar. Gaia não é desagradecida. O que passa é que a cura, como toda cura, não está nunca à altura das expectativas. Mas acredito que a psicanálise mudou a face da Terra. O pensamento freudiano transformou o mundo além de toda expectativa, ao ponto que podemos dizer que o neurótico contemporâneo é uma criatura inventada por Freud. Ele projetou sua própria neurose no planetário atual e aí reside boa parte de seu gênio: sua neurose deu sentido à nossa. Ele modelou o homem atual, mas o modelou até um certo momento e esse momento pode estar acabando.

Também existe um assunto mais metafísico, mais hermenêutico. Acredito que minha geração morrera na praia. O tema foi tratado por vários futurólogos. Arthur Clark vaticinou que o homem vai ser imortal antes do ano 2500. Clark provavelmente exagera, mais tenho certeza de que o homem pronto vai ser imortal. Morreremos então no umbral do novo Éden mundial. Mil anos não é nada em tempo cósmico. Mas tenho que saber uma coisa, João Heráclito, vocês já são quase imortais?

Nota
Conferência proferida no XV Congresso Brasileiro de Psicanálise, sobre o tema ENCONTRO NO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, ocorrido em 2003. Texto publicado em Cógito - Publicação do Círculo Psicanalítico da Bahia, vol. 6 - p. 25-27. Salvador, 2004