O Brasil, continental por sua extensão, tem apresentado, ao longo de sua história, movimentos de violência bem distintos, que vêm marcar um tempo específico de cada período vivido em sua constituição como país.
Quero destacar aqui dois desses momentos: o primeiro, aquele do Brasil rural, ligado aos valores tradicionais, que chamarei de violência da tocaia e da vingança, e o segundo, o do Brasil urbano, da concentração demográfica nas grandes cidades, que têm assistido à violência da bala perdida, sem alvo certo.
Para ilustrar esses dois momentos recorro à rica literatura brasileira, usando dois contos emblemáticos: "A hora e a vez de Augusto Matraga", de Guimarães Rosa e "O Cobrador"de Rubem Fonseca, ambos mineiros.
A Hora e a Vez de Augusto Matraga faz parte do primeiro livro de contos de seu autor, intitulado Sagarana, que, como o próprio nome indica, narra a saga pungente do povo brasileiro, e só veio a ser publicado em 1946. Apesar de trazer sempre para o texto a riqueza de uma linguagem popular, Guimarães Rosa não pode ser reduzido a um escritor regionalista. Seu vocabulário e seus temas são universais. Ele foi não apenas um pesquisador, mas muito mais um inventor, um criador da linguagem, com novas palavras e originais articulações sintáticas, que fazem de seu texto uma prosa poética.
Em "A Hora e a Vez de Augusto Matraga", a crueldade dos jagunços e coronéis é manifestação de um conflito cósmico entre o bem e o mal, como entidades metafísicas e atributos transcendentes. Matraga passa do mal para o bem através de uma típica ascese religiosa, que inclui a penitência e a expiação, até resultar no auto-conhecimento. Seus conflitos são os mesmos de sagas e giestas heróicas, atravessadas pela temática da queda e da salvação.
Matraga, ou Nhô Augusto Esteves, é o valente do sertão, que nada respeita a não ser sua própria vontade.
O conto começa com Nhô Augusto disputando uma prostituta num leilão de santo e saindo vencedor. Por achá-la sem atrativos, despreza-a, o que leva ao ódio o capiauzinho que era seu namorado, e que jura vingar-se dele, secretamente.
Matraga, é casado com Dionóra, bela mulher por ele subestimada, com quem tem uma filha.
"Duro, doido e sem decência, como um bicho grande do mato. E em casa sempre fechado em si. Nem com a menina se importava. Dela, Dionóra, gostava, às vezes; da sua boca, das suas carnes, só. No mais, com os capangas, com mulheres perdidas, com o que houvesse de pior...... Fora assim desde menino, uma meninice à louca e à larga, de filho único de pai pancrácio. E ela, Dionóra, tivera culpa, por haver contrariado e desafiado a família toda para se casar........ Dionóra amara-o três anos, dois anos dera-os às dúvidas e o suportara nos demais. Agora, porém, tinha aparecido outro. Não, só de por aquilo na idéia já sentia medo... Nhô Augusto era capaz de matá-la como já dera conta do homem da foice, pego por vingança de algum ofendido... E o outro, era diferente"!
Até que seu Ovídio Moura leva Dionóra e a filha de Matraga. Manda a notícia pelo capanga de Nhô Augusto: "Volta você e fala com seu patrão que Siá Dona Dionóra não quer viver mais com ele, e que ela de agora por diante vai viver comigo, com o querer dos meus parentes todos e com a benção de Deus". Quim Recadeiro, que era assim o nome do capanga fala para o patrão: "Eu podia ter arresistido mas era negócio de honra, com sangue só para o dono, e pensei que o senhor podia não gostar".
"Fez na regra e feito, chama os meus homens!" Mas esses não vêem até ele, já que Matraga "tinha dívidas enormes, política do lado que perde, falta de crédito, as terras no desmando, as fazendas escritas por paga, e tudo de fazer ânsia por diante, sem portas, como parede branca."
Os homens, chamados pelo Major Consilva, inimigo de seu pai, para ele se bandearam. É o mesmo Quim Recadeiro que diz: _ "Estão espalhando... o senhor dê o perdão para minha boca, que eu só falo o que é perciso - "estão dizendo que o senhor nunca respeitou filha dos outros, nem mulher casada e mais que é que nem cobra má, que quem vê tem de matar por obrigação."
Em Matraga "mal e mal, por debaixo da raiva, uma idéia resolveu por si: que antes de ir à Mombuca matar o Ovídio e a Dionóra, precisava de cair com o Major Consilva e os capangas. Senão, se deixasse resto por acabar, perdia a força. E foi."
Acontece que, ao chegar lá, o mesmo capiauzinho cuja namorada desdenhara, já se encontra entre o bando.
"Nhô Augusto fechou os olhos, de gastura, porque ela sabia que capiau de testa peluda, com o cabelo quase nos olhos, é uma raça de homem capaz de guardar o passado em casa, em lugar fresco do pote... e ir buscar da rua outras raivas pequenas, tudo para juntar à massa-mãe do ódio grande, até chegar o dia de tirar vingança".
Nhô Augusto, no enfrentamento com o bando é espancado, marcado como gado, na polpa glútea direita e já quase sem forças pula de um barranco alto. Dado como morto, um capanga diz "Arma uma cruz aqui mesmo, Orósio, para de noite ele não vir puxar teus pés... E deram as costas, regressando sob um sol mais próximo e maior."
Nhô Augusto, lá embaixo, é acolhido por um piedoso casal de pretos, que o trata como a um filho. Cuidam do seu corpo e do seu espírito: "Não faz assim, moço, não desespere. Reza, que Deus endireita tudo... P'ra tudo Deus dá o jeito." Trazem-lhe um padre, que ao fim de muitas palavras lhe diz: "Reza e trabalha, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina, com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria, cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua".
Imbuído dessa idéia Nhô Augusto diz: "Eu vou pro céu, por bem ou por mal. E a minha vez há de chegar... Pra o céu eu vou, nem que seja a porrete".
Dedica-se então a ajudar os outros, na tentativa de reparação de seus erros. "Capinava para si e para os vizinhos do seu fogo, no querer de repartir, dando de amor o que possuísse." Em seus pensamentos se inquiria - "Desonrado, desmerecido, marcado a ferro feito rês... assim tão mole, tão sem homência, será que posso mesmo entrar no céu?"
É quando sabe da morte de Quim Recadeiro, morte-matada com mais de vinte balas no corpo, ao bater-se por causa dele, Nhô Augusto, que pensa em vingar o ajudante fiel - "Tem horas que fico pensando que, ao menos para honrar o Quim, que morreu por minha causa eu tinha ordem de fazer alguma vantagem... Mas eu tenho medo... já sei como é que o inferno é"...
As coisas estão nesse pé quando aparece em seu terreiro o bando de Seu Joãozinho Bem-Bem, homem temido e admirado em todo sertão.
- "É tudo gente limpa... Mocorongo eu não aceito comigo! Homem que atira atrás de toco não me serve... Gente minha só mata as mortes que eu mando, e morte que eu mando é só morte legal"!
O bando se hospeda por uma noite com Nhô Augusto, que logo de estalo aprecia o chefe e o considera como um irmão, um duplo, uma alma gêmea. Mas logo sabe a que vieram: Vinham vingar a morte de um dos capangas. "O matador foi à traição - caiu no mundo, campou no pé... Mas a família vai pagar tudo, direito!"
Nhô Augusto tenta dissuadir seu Joãozinho Bem-Bem daquela morte. Pede que não se vingue na família do matador, cujo pai vem pedir, humildemente, que eles sejam poupados: "O senhor é poderoso, é dono do choro dos outros... Mas a Virgem Santíssima lhe dará o pago por não pisar em formiguinha do chão... Tem piedade de todos nós, seu Joãozinho Bem-Bem".
Mas este responde: "Lhe atender não posso, e com o senhor não quero nada, velho. É a regra... Senão, até quem é mais que havia de querer obedecer a um homem que não vinga gente sua, morta de traição?... É a regra... Um dos dois rapazinhos seus filhos tem de morrer, de tiro ou à faca, e o senhor pode escolher qual deles é que deve pagar pelo crime do irmão... E as moças... Para mim, não quero nenhuma, que mulher não me enfraquece: as mocinhas são para os meus homens"...
Nhô Augusto intercede pela família: - "Estou pedindo como amigo, mas a conversa é no sério, meu amigo, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem"... "Pois pedido nenhum desse atrevimento eu até hoje nunca que ouvi nem atendi!"
- "Pois então... meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, é fácil... Mas tem que passar primeiro por riba de eu defunto..."
Um capanga avança em Nhô Augusto, que se persigna e entra na luta.
- "Se entregue mano-velho, que eu não quero lhe matar"...
- "Joga a faca fora, dá viva a Deus e corre, seu Joãozinho Bem-Bem...
- Espera aí, minha gente, ajudem o meu parente ali, que vai morrer mais primeiro... Depois então posso me deitar"...
- "Estou no quase, mano velho. Morro, mas morro na faca do homem mais maneiro de junta e de mais coragem que eu já conheci... Eu sempre lhe disse que era bom mesmo, mano velho... É só assim que gente como eu tem licença de morrer... Quero acabar sendo amigos."
- "Feito, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem. Mas agora se arrepende dos pecados e morre logo como um cristão, que é para a gente poder ir junto... Perguntem quem aí que algum dia já ouviu falar no nome de Nhô Augusto Esteves, das Pindaíbas!... Põe a benção na minha filha... seja onde for que ela esteja... E Dionóra... Fala com Dionóra que está tudo em ordem! Depois, morreu".
O cobrador: O 2o conto, O Cobrador, termina o livro do mesmo nome do escritor Rubem Fonseca, de 1979. Delegado de polícia no Rio de Janeiro, seus contos são buscados na vida cotidiana dos grandes centros do país e seus personagens se constituem da imensa legião de seres à margem da sociedade, ocupados em tarefas miúdas ou grandiosas, mas sempre confrontados com as diferenças sociais.
O personagem principal de O Cobrador não tem nome próprio, embora faça a narração toda na 1a pessoa. "Na porta da rua, uma dentadura grande, embaixo escrito Dr.Carvalho, Dentista... Esperei meia hora, o dente doendo... Entrei no gabinete, sentei na cadeira, o dentista botou um guardanapo de papel no meu pescoço. Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muito.
Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado. Só rindo. Esses caras são muito engraçados. Vou ter de arrancar, ele disse, o senhor tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder os outros... Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê? Disse com pouco caso. São quatrocentos cruzeiros. Só rindo. Não tem não, meu chefe, eu disse. Não tem não o que? Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta. Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse........ Odeio dentistas, comerciantes, advogados, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteiro. Todos eles estão me devendo muito... Eu não pago mais nada, cansei de pagar! Gritei para ele, agora eu só cobro! Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta". Outra cena: "Me irritam esses sujeitos de Mercedes.
...Era de noite e não tinha ninguém perto. Ele estava vestido de branco, tinha ido jogar tênis num daqueles clubes bacanas que tem por ali. Eu vinha distraído quando a buzina tocou. Vi que o carro vinha devagar e fiquei parado na frente. Como é? Ele gritou. Saquei o 38 e atirei no parabrisa, mais para estrunchar o vidro do que para pegar o sujeito. Ele arrancou com o carro, para me pegar ou fugir, ou as duas coisas. Pulei pro lado, o carro passou, os pneus sibilando no asfalto. Parou logo adiante. Fui até lá. O sujeito estava deitado com a cabeça para trás, a cara e o peito cobertos por milhares de pequeninos estilhaços de vidro. Sangrava muito de um ferimento feio e a roupa branca dele já estava toda vermelha.
Não foi Deus nem o Diabo que me fez um vingador. Fui eu mesmo. Eu sou o Homem Pênis. Eu sou o Cobrador.
... Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela, fazenda, sorvete, bola de futebol... Numa noite, na saída de uma festa de ricos, encontra e subjuga um casal de convidados da festa. Ai, certas pessoas pensam que a vida é uma festa. Seguimos pelo Recreio dos Bandeirantes, até chegar a uma praia deserta. Saltamos. Deixei acesos os faróis. Nós não lhe fizemos nada, ele disse. Não fizeram? Só rindo. Senti o ódio inundando os meus ouvidos, minhas mãos, minha boca, meu corpo todo, um gosto de vinagre e lágrima. Ela está grávida, ele disse, apontando a mulher esguia e decidi ser misericordioso e disse, puf, em cima de onde achava que era o umbigo dela, desencarnei logo o feto. A mulher caiu emborcada. Encostei o revólver na têmpora dela e fiz ali um buraco de mina... O pescoço dele saiu rolando pela areia. Ergui alto o alfanje e recitei: Salve, o Cobrador!"
O conto evolui com a descoberta de Ana, que lhe segue os passos.
..."Tenho uma missão. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei. Ana me ajudou a ver. Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo... Matar um por um é coisa mística e disso me libertei. No baile de Natal mataremos convencionalmente os que pudermos. Será meu último gesto romântico inconseqüente. Escolhemos para iniciar a nova fase os compristas nojentos de um supermercado da zona sul. Serão mortos por uma bomba de alto poder explosivo... Explodirei as pessoas, adquirirei prestígio... O mundo inteiro saberá quem é você, quem somos nós, diz Ana. Véspera de Natal é um bom dia para essa gente pagar o que deve... Vamos ao Baile de Natal. Não faltará cerveja. Nem perus. Nem sangue. Fecha-se um ciclo da minha vida e abre-se outro".
No conto de Guimarães Rosa, os personagens evoluem em torno da honra e da vingança, que são dois imperativos imemorias das sociedades mais primitivas, onde os princípios organizadores situam-se no todo (holismo) e o relacional (relações de parentesco, pertença ao clã, etc.) construídos sobre os pilares da hierarquia e da tradição. Nessa organização social "as relações entre os homens são mais importantes, mais altamente valorizadas do que as relações entre homens e coisas". (Louis Dumont). Quando o indivíduo e a esfera econômica não têm existência autônoma e se encontram submetidos à lógica do estatuto social, reina o código de honra, o primado absoluto do prestígio e da estima social, bem como o código da vingança, significando este a subordinação do interesse pessoal ao interesse do grupo, a impossibilidade de romper a cadeia das alianças e das gerações, dos vivos e dos mortos, a obrigação de por em jogo a própria vida em nome do interesse superior do clã ou linhagem. A honra e a vingança exprimem diretamente a prioridade do conjunto coletivo sobre o agente individual.
Nesse tipo de universo, o ponto de honra é o que ordena a violência, ninguém pode, sob pena de ser desrespeitado, suportar uma afronta ou injúria: grandes insultos, ódios, traições conhecem, mais facilmente que nas sociedades modernas, um desfecho sangrento. Longe de manifestar qualquer impulsividade incontrolada, a belicosidade primitiva é uma lógica social, um modo de socialização consubstancial ao código de honra.
A vingança é o restabelecimento de um equilíbrio provisoriamente quebrado, a garantia de que a ordem do mundo não sofrerá alteração. A violência vingadora é uma instituição social, que visa equilibrar o mundo, instituir uma simetria entre vivos e mortos.
Num mundo onde as leis não são satisfatórias ou acessíveis, restaura-se a prática da justiça pessoal ou da vingança privada. Como a vingança é um dever imprescindível, todos os homens são iguais diante da violência, nenhum pode monopolizá-la ou renunciar a ela, nenhum será protegido por uma instância especializada. A vingança só desaparecerá com a entrada em cena das sociedades de ordem individualista e do Estado Moderno que lhes corresponde, definindo-se este, precisamente, pelo monopólio da força física legítima, pela penetração e pela proteção constante e regular da sociedade.
Já a especificidade da violência na cultura urbana contemporânea se dá a partir de duas teses:
- A primeira, apresentada por Hannah Arendt (1994) afirma que o declínio do poder enquanto capacidade de agir em comum, no reconhecimento recíproco e na realização de trocas simbólicas, ressulta num incremento da violência que, por sua vez, é potencializada pela produção de instrumentos, multiplicando o vigor individual.
Nessa sociedade, que é a do Cobrador, aparece a atomização do social, com a emergência de novos valores que privilegiam a relação com as coisas.
- A outra tese, formulada por Calligaris (1997) postula que as violências exercidas sobre os corpos dos semelhantes, são a caricatura da forma de poder pré-moderno (servidão e escravidão) e efeito do fechamento do acesso às formas de poder moderno (poder sobre os objetos) à maioria dos brasileiros. Onde não se viabiliza, socialmente, o exercício efetivo de um poder, temos um convite à violência.
O individualismo produz 2 efeitos inversos e complementares: a indiferença e a sensibilidade ao outro. Os homens raramente se dedicam uns aos outros, mas mostram uma compaixão geral por todos os membros da espécie humana.
Enquanto Matraga chega ao ápice de sua ascese oferecendo seu corpo pelo corpo do outro (o jovem irmão do criminoso), o Cobrador, a princípio sofre porque se sente em débito consigo mesmo: não tem acesso aos objetos que possam lhe dizer quem ele é; ele não se sente um sujeito, já que se vê privado de tudo aquilo que cobra. Sem acesso aos objetos, torna-se ele mesmo um objeto sem valor, desqualificado, e a única saída é sua busca de qualificação como O Cobrador. Nesse papel, toma para si, simbolicamente, através da violência, o que lhe falta para subjetivar-se, ocupando o lugar do gozo que lhe diga respeito e que lhe é vedado.
Na sociedade rural, esse lugar de gozo é conhecido, já que através da inserção no mito coletivo, mesmo que seja na forma de seu direito de ser jagunço ou pária, esse lugar é garantido.
O Cobrador faz também uma tentativa de ascese quando sua violência não é mais a esmo e sem vinculações sociais. Agora ele já tem um motivo para matar: ele se insere, com a ajuda da namorada politizada, num clã imaginário de despossuídos, que deverá conquistar à força, o que lhes falta em confronto com os possuidores.
Alguma coisa, porém, parece unir esses 2 personagens. Privados dos nomes do pai, tanto no particular (Matraga é filho de um pai pancrário e o Cobrador de um pai ausente), quanto no social (sem acesso à lei geral, que não os protege), não estariam eles tentando encarnar, no real, vicariamente, o pai primevo imaginário, todo poderoso, que distribui justiça por si mesmo?
BIBLIOGRAFIA
ROSA, Guimarães - A Hora e a Vez de Augusto Matraga, in Sagarana, Círculo do Livro, São Paulo, 1984.
WILLER, Cláudio Guimarães Rosa e "Sagarana", in Sagarana, Círculo do Livro, São Paulo, 1984.
FONSECA, Rubem - O Cobrador, in O Cobrador, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1979.
LIPOVETSKY, Gilles - A Era do Vazio, ensaio, sobre o individualismo contemporâneo. Lisboa, Relógio D'Agua.
DUMONT, Louis - Homo Aequalis. Paris, Gallimard, 1977
ARENDT, Hannah - Sobre a Violência. Rio de Janeiro. Relume - Dumará, 1994.
CALLIGARIS, Contardo - Folha de São Paulo, São Paulo, 22 de setembro de 1996, Caderno Mais.
FLEIG, Mário - Os Efeitos da Modernidade: a violência e as figurações da lei na cultura, in Psicanálise e colonização, leituras do sintoma social no Brasil. Porto Alegre, Artes e Ofícios Editora Ltda, 1999.