Considerar a metáfora paterna

Maria Lúcia Salvo Coimbra
Círculo Psicanalítico De Minas Gerais - CPMG

SUMÁRIO

Algumas reflexões sobre a mudança no conceito de metáfora paterna e sua implicação na direção da cura, especialmente na posição do analista. Assim, de ação simbólica fundante de uma estrutura, aos Nomes do pai como possibilidades de amarração da estrutura que é agora definida pelo enodamento do real, imaginário e simbólico, e carrega uma perda que exige escrita e não apenas articulação significante.


O conceito de castração; a função do falo como objeto especular que se distingue do falo, objeto imaginário, sem representação especular e operador na castração ou como significante (seja de desejo, seja de gozo); e a função do pai foram trabalhados por Lacan ao longo de toda a sua obra.

A fórmula da metáfora paterna aparece pela primeira vez no texto “D'une question préliminaire à tout traitement possible de la psychose” (1957/58). Os seminários “As Psicoses” e “A Relação de Objeto” antecederam e prepararam sua escrita.

Em 1958, Lacan pronuncia uma conferência em alemão, cujo título “Die Bedeutung des Phallus” foi traduzido “A Significação do Falo”. Tal tradução pode encobrir o paradoxo do termo Bedeutung que carrega dois sentidos: o já citado, “significação”, e também o de “referente”. Lacan se reporta a esta “péssima tradução” (embora diga que não encontrou equivalente melhor) pois Bedeutung... designa a relação com o real”.

Em novembro de 1963, Lacan pronuncia um único seminário “Les Noms du Père” (interrompido pela sua expulsão da IPA), tema anunciado nas últimas lições do seminário sobre a angústia. Já naquela época, questionava sua própria teorização sobre a metáfora paterna e o Nome-do-Pai. Dez anos depois inicia o seminário “Les non-dupes errent” e em seguida “R.S.I.”, heresia.

Por que faço esta escolha entre os diversos seminários e escritos de Lacan?

Para lhes dizer que os conceitos de castração, falo e Nome-do-Pai precisam ser percorridos em sua obra. Para lhes sugerir que a nossa apropriação desses conceitos supõe situá-los nos diferentes momentos de sua elaboração teórica e supõe ser possível ressignificá-los a partir de outros dados. E mais ainda, quando Lacan toca a dimensão do herético estamos diante de um ato de subversão. Produz-se uma comoção tal que a psicanálise surge modificada, instaura-se uma práxis no equívoco, que suporta o real.

Assim, nos anos sessenta, a metáfora paterna pode ser considerada a escrita lacaniana do complexo de Édipo e da castração. Ação simbólica, fundante de uma estrutura pela introdução do elemento de falta no universal, cujo efeito é inscrever o sujeito na lei e na filiação, marcado pela culpa, pela dívida e pelo desejo. Sujeito dividido nesta estrutura significante que sempre produz perda.

Culmina na produção da significação fálica, metafórica ou metonímica. Mas, algo escapa: enigma que incide sobre o desejo materno, sobre o desejo do Outro.

Na fórmula da metáfora paterna, o desejo da mãe comporta relação a um x que, do outro lado, é o falo. O que a mãe deseja falta. Como o mesmo termo está no numerador e denominador, esse pode ser barrado e o Nome-do Pai metaforiza o desejo da mãe:

Porém, esse x, enigmático, sem barrar, permanece, efeito da própria inscrição na linguagem e no discurso. Ao mesmo tempo, abre-se uma passagem possível para a questão do gozo feminino, que Lacan vai desenvolver mais tarde. Isto é, apesar da necessária interdição do Nome-do-Pai e porque há essa interdição demarca-se o falo como significante de desejo e de gozo e, também, a possibilidade de ultrapassar este limite: o gozo não fálico.

O significante Nome-do-Pai foi usado, muitas vezes, numa dimensão religiosa, de garantia. Porém, o Outro não assegura nem a verdade, nem o gozo. É o que Lacan enfatiza em seus últimos seminários. Ao pluralizar o Nome-do-Pai, ao escrever “les non-dupes errent”, mostra que não há o significante regulador do gozo, “desidentifica” o analista deste lugar... e propõe trabalhar o equívoco que a própria linguagem carrega.

Os nomes do pai vêm suprir o erro estrutural humano promovendo uma certa estabilização e não têm a mesma função que na metáfora paterna, inauguradora da estrutura.

O sujeito ao se confrontar com a perda estrutural, a falta de garantias e inconsistência do Outro, apresenta respostas sintomáticas. Para o analista se coloca a questão de responder do lugar que mantenha aberto o espaço do desejo articulado ao gozo, no desassossego que recusa a idealização, a identificação; sem deixar o paciente cair como objeto; sem oferecer “respostas tranqüilizantes” e, também, sem se omitir...

Lacan diz em algum lugar que a práxis psicanalítica não é impossível. É difícil. Na conferência de Bruxelas, afirma que as histéricas desempenharam um papel social preciso: em seus salões acontecimentos intelectuais, artísticos se difundiam e “ao escutá-las Freud inaugurou uma forma inteiramente nova de relação humana”. Porém, hoje a “doideira” psicanalítica substitui os sintomas histéricos. Televisão, jornais, revistas, etc. se ocupam da psicanálise e os analistas são instigados a falar sobre qualquer assunto, fora de seu campo, desamarrados do discurso psicanalítico, desamarrados do real.

Chamado a comparecer, participando do tecido social o analista não pode responder que não há ninguém... Assim não consideramos a omissão uma saída, embora seja possível e, às vezes, tentadora...

Entre a “doideira” e a omissão não haveria alternativas?

Sem se esquivar, reconhecer o limite da psicanálise, posição esta que não é clamor de verdade, nem revolucionária, nem busca convencer. Subversiva, talvez. Algo passa pelo equívoco. Analista errante na estrutura de dogma, faz seu caminho de questionamento, sustentado por um discurso marcado pela finitude, não dá garantias. Diferente do discurso religioso, que se supõe eterno e não, contingente. E sendo datado, tem algo de acontecimento. Este lugar do analista vai ficando mais claro nos últimos textos de Lacan, demarcando uma nova clínica que responde cada vez com mais precisão à dimensão do real. Não se trata portanto de imaginário, de sintomas novos, mas é preciso desvencilhar-se de velhos conceitos psicanalíticos que beiram a ideologia. Os sintomas de fato variam, porque em cada época histórica o sujeito recolhe fios da trama social para tecê-los. No início do século passado, assistimos à decadência do pai. Freud, com o complexo de Édipo e o mito do pai primevo, em parte obturou esta falha, tentando dar consistência a algo que desvanecia. Lacan analisa essa consistência e provoca a ruptura neste ponto já frágil, mas não de qualquer forma. Aponta a ex-sistência. Não fala nem além do pai, nem além do falo. Não se supera o pai, nem se fica livre dele. A questão é outra: a relação com o real. A função não é apenas do falo como significante ou como objeto, mas função escritura e o falo como letra. O real tem que ser escrito e não superado. Ultrapassar o pai é uma demanda neurótica para não escrever nada. Os psicanalistas, como qualquer um, estão inscritos no simbólico, submetidos à sua dimensão de verdadeiro-falso; certo-errado. Desta forma podem se instalar do lado imbecil do saber, alienados a algum significante do ideal ou ao próprio fantasma.

A própria teoria psicanalítica pode imbecilizar – por exemplo, a amarração do complexo de Édipo, percebida como a única possível – embotando a descoberta de outras e o trabalho com o real. Daí a importância da interlocução com um ponto fora do discurso psicanalítico para desalojá-lo de sua própria debilidade mental. Assim, os analistas ficam advertidos do ponto fora: o que ex-siste é fundamental.

Se não há garantia da tomada do sujeito no campo do Outro, este enganche depende do acaso, é acidental, poderia não ter ocorrido e o modo como cada sujeito se inscreve na estrutura não só é precário como muito particular. Em análise não se trata de retificação...

Trata-se de tocar um real que não se move. A escritura que faz a borda do real é uma invenção de cada análise. Em que momento as palavras passam à escritura? Quando se perde o sentido como significado; como significação metafórica e metonímica, defrontando-se com o sentido: não há relação sexual.

Então, deste trabalho no particular também nos implicamos na psicanálise em extensão (em escolas, hospitais, prisões, etc.) e somos convidados a generalizar para a mídia. Acrescente-se o risco de se extraviar no preconceito ou na demanda...

Talvez o que o analista tenha a dizer se relacione, em síntese, com limites (inclusive o da própria psicanálise), com o franquear destes (os sintomas, comportamentos impulsivos) e como abrir passagem para o desejo e o gozo, sem passagem ao ato.

BIBLIOGRAFIA

LACAN, Jacques. Intervenciones y textos – 2. Buenos Aires: Manantial, 1988. . O seminário, livro XXII: R.S.I (s.n.t.), 1974-75.
. Propos sur l'hystérie. Conferência de Bruxelas, 26/fev./1977, reproduzida in Suplemento belga La Lettre Mensuelle de l'École de la Cause Freudienne.