Transferência e ética: direção da cura

Déborah Pimentel
Círculo Psicanalítico de Sergipe

UNITERMOS: 1 – Cura, 2 – Desejo do Analista, 3 – Ética da Psicanálise,4 – Transferência
RESUMO: O texto é uma tentativa de articular o conceito de cura em psicanálise, com o lugar ocupado pelo analista enquanto objeto causa do desejo e manejo ético e com a irremediável condição de sujeito dividido.


“O psicanalista banha-se numa trama cerrada e onde a cura, se cura há, é apesar dele” (1)
Nasio

A psicanálise é uma práxis regida pela ética do inconsciente e pelo compromisso que se estabelece entre o sujeito e o seu desejo, permitindo o acesso à sua verdade. Verdade essa, escondida no enigma do sintoma. Verdade impossível de ser dita por completo.

O psicanalista pela sua própria experiência como analisando, acerca da impossibilidade da verdade ser inteiramente dita, tem a função, também impossível, de levar o analisando a dizer o que não pode ser dito, a bem dizer o seu sintoma. Eis a ética do bem dizer.

O sintoma porquanto ser mensagem codificada é metafórico e está submetido como tal, às leis da linguagem. O sintoma, revela-se representante do sujeito do desejo por conter um gozo na fantasia inconsciente, que o sustenta e o define como sexual. A eficácia da psicanálise seria a própria decodificação da mensagem via transferência (1), ou seja, ao analista investido na função de sujeito suposto saber é endereçado uma demanda para decifrar o enigma do sintoma e por conseguinte, o sujeito do inconsciente.

Lacan nos disse que o sintoma significa “o retorno como tal da verdade na falha do saber” (1). Verdade que o sujeito inquestionavelmente nada quer saber. O sintoma por si só é, sabemos, insuficiente para promover uma demanda analítica. É preciso mais do que isso. É preciso que o sintoma fracasse e este será o momento em que o sujeito percebe através do seu desamparo e desconhecimento, que nada lhe resta, senão a possibilidade de dirigir-se ao saber, que eqüivale procurar uma resposta ao enigma do sintoma. O sintoma é aí capturado pela transferência. A psicanálise serve portanto, para quem deseja confrontar-se com a sua verdade, questionando o sintoma, trocando o gozo pelo saber, numa articulação entre o saber e verdade, na medida mesmo em que o sintoma analítico, enquanto enigma se dirige ao sujeito suporto saber, de quem se espera receber significações.

O desejo do analista é um desejo de saber e não deve ser confundido com o desejo ingênuo de curar. Freud nos adverte acerca do analista, dos perigos sobre o desejo de curar, a ambição de fazer o bem. A ética da psicanálise é a ética do desejo. O furor curandis não levaria em conta o desejo inconsciente do sujeito e seria uma manifestação de resistência do próprio analista, produzindo um saber no analisando, aquém da verdade. “Não há mais que uma única resistência, a resistência do analista” (2).

O cerne da experiência psicanalítica é inapreensivel e é a palavra que introduz a verdade na ordem do real. Real que é enigma. Enigma que exige ser decodificado. É aí que começa a análise.

O sujeito tem uma relação de ignorância com um real que o causa, ou seja, ele nada sabe do significante que o determina. Aprendemos com Lacan que não há saber para o inconsciente, pois o inconsciente é uma saber que não se sabe. A descoberta do recalque por Freud e dos seus efeitos no sintoma, dão uma nova direção do processo psicanalítico onde o psicanalista está comprometido.

A suspensão do recalcamento favorece o acesso do sujeito a uma certa verdade e essa possibilidade de dizer a verdade está diretamente vinculada ao desejo do analista. “No correr da análise acontece o analista se defender em relação ao retorno do recalcado a ponto de o analisando acabar se chocando, em seu próprio percurso, com aquilo de que o analista, em certos aspectos, nada quer saber” (1).

O lugar ocupado pelo psicanalista não o protege do efeito daquilo que é dito pelo analisando e muitas vezes, reedita com ele sua própria história edípica, reativando conflitos residuais, angustias e defesas.

Inegável o fato de um psicanalista retomar muitas vezes sua própria análise à cada processo de análise que testemunha. E à propósito disso é que Lacan diz que: “O desejo do analista é o que em última instância, opera na psicanálise” (6).

Se o analista não dá vazão ao seu desejo, desejo sempre mediatizado pelo outro, sua abstinência favorecerá a alienação do desejo do analisando que poderá se manifestar. A regra da abstinência é o correlato direto da livre associação. É esta a máxima lacaniana acerca da ética da psicanálise: “Não ceder quanto ao seu desejo” (3). A ética da psicanálise propõe ao analista acolher, mas nunca responder, à demanda que lhe é dirigida pelo analisando. Demanda que é sempre de amor. A psicanálise implica em renúncia à sugestão e o que pode ser chamado de neutralidade não se resume à indiferença e nem exclui uma intervenção mais ativa (7).

Sobre a ética da psicanálise, é dito por Lacan, que ela “consiste essencialmente num juízo sobre nossa ação” e mais, “se há uma ética da psicanálise é na medida em que, de alguma maneira, por menos que seja, a análise fornece algo que se coloca como medida de nossa ação – ou simplesmente pretende isso” (3). A medida da eficácia terapêutica é o efeito da linguagem sobre o gozo sexual do sintoma e a constituição de um saber sobre o sujeito.

A abstinência do analista portanto, marca a falta, remete ao registro da castração, derruba a ilusão da completude e permite a emergência do saber que o analisando detem sobre si mesmo: “onde estava o id ali estará o ego” (8), ou ainda no dizer lacaniano: “ali onde isso era, o sujeito do desejo deve advir” . Esta é a ética freudiana que rege a ação do psicanalista, num movimento assegurado pelo processo transferencial, ou seja pelo saber que o analisando supõe ao analista.

Não há clínica sem ética assim como não há psicanálise sem psicanalista. Do psicanalista se exige o dever de “saber manejar a transferência sem perder-se nela” (6). Falamos aqui, de um laço entre analista e analisando, entre um significante (significante da demanda), e outro siginificante que é convocado em nome do saber. Entre eles, está o desejo.

Freud no final dos “Estudos sobre a Histeria” diz que o objetivo da psicanálise, promovendo a suspensão do sintoma é transformar o “sofrimento histérico em infelicidade comum” . A psicanálise não faz falsas promessas, não visa a busca da felicidade. Ainda que a felicidade seja aquilo que os analisandos demandam, mas que seria a obtenção de um impossível. Se a felicidade chega, se é que chega, ela vem por acréscimo. Esta, sem duvida, é uma perspectiva ética, que permite ao sujeito uma escolha. “Recusamo-nos categoricamente a considerar o paciente que solicita nossa ajuda e se põe em nossas mãos como um bem nosso. Não procuramos fazer seu destino por ele, inculcar-lhe nossos ideais ou modelá-lo à nossa imagem com o orgulho de um criador” . Isto é o que nos diz Freud no seu texto sobre Técnica Psicanalítica. Ou seja, por mais tentador que seja, o analista deve resistir ocupar o lugar de mestre cujo efeito pode ser uma cura sintomática que muito se distancia da análise. E não deve o analista, muito menos, tomar partido por uma das partes conflitantes do sujeito (Ideal versus Supereu), possibilitando assim, o encontro do sujeito com o desejo.

No texto de Freud sobre “O Ego e o Id” ele diz acerca do manejo da reação terapêutica negativa como algo a “dar ao eu do paciente a liberdade para decidir por isso ou por aquilo” e continua “Talvez isso também dependa de que a personalidade do analista passa permitir ao paciente colocá-lo no lugar de seu ideal de ego. Isso envolve a tentação de o analista desempenhar o papel de profeta, salvador e redentor do paciente” (9).

A psicanálise é perturbadora justo por confrontar o sujeito com seus conflitos psíquicos. O lugar da psicanálise é o da inquietação. Freud em sua Conferência 34 diz que “não é tanto como terapia que gostaria de recomendar a psicanálise ao interesse dos senhores e sim por causa de seu conteúdo de verdade” . Verdade libertadora.

A ética psicanalítica surge no cerne da relação entre psicanalista e analisando. É no ato psicanalitico que o sujeito é questionado sobre o seu desejo e da sua responsabilidade acerca dos seus sintomas e do gozo ali contido, ou seja, acerca de sua posição subjetiva que traduz uma escolha; escolha inconsciente; uma eleição. Escolha da neurose, diz Freud. Só confrontando o sujeito com sua eleição, o ato psicanalítico pode levá-lo a uma nova posição, uma retificação subjetiva.

O psicanalista, por outro lado, sente angustia – horror ao ato – porque faz um ato cujo efeito é imprevisível, em resposta àquele que quer saber a verdade e mais, que sua intervenção não vem dele, não é seu aquele ato, mas um ato analítico que ele faz sem saber e que implica num retorno nele (analista) do saber recalcado do analisando. Só no a posteriori é que o analista pode subjetivar o seu ato e as razões dele no processo.

Em Psicopatologia da Vida Cotidiana, Freud havia dito que “o sujeito realiza o ato sem pensar em nada, de maneira puramente acidental” , Lacan diz que “o que exprime o “não penso” do analista é a necessidade que torna a lançá-lo no des-ser”.

“Todo ato ultrapassa o autor que longe de cometê-lo, nele se encontra preso” (10). O contrário, ou seja, ultrapassar o ato, seria o mesmo que predeterminá-lo. O ato analítico, diz Lacan, “vem no lugar de um dizer pelo qual ele muda o sujeito” . É justamente isso que gera um sentimento de incerteza no psicanalista: medo que os efeitos do seu trabalho o superem.

O desejo do analista é escamoteado pelo seu narcisismo, e diante dos reveses de um processo psicanalitico é debitado muitas vezes ao analisando, o seu fracasso, como se ao analista não coubesse responder sobre o seu ato.

A interpretação ética é aquela correlata ao estatuto do semidizer a verdade do sujeito, ou seja, ele deve ser sempre de caráter alusivo e nunca posta como saber.

Lacan, no seminário sobre os Escritos Técnicos de Freud diz que “a palavra plena é aquela que indica, que forma a verdade, tal qual ela se estabelece no reconhecimento de um pelo outro. A palavra plena é a palavra que faz ato. Depois de sua emergência, um dos sujeitos já não é o que era antes. Por isso, esta dimensão não pode ser eludida na experiência analítica” e continua Lacan, “a transferência eficaz é simplesmente, em sua essência, o ato da palavra” , ou seja, é a transferência que possibilita o acesso da palavra plena que surge nas dificuldades do discurso. A verdade desponta justo aí. “Nossos atos falhados, são atos bem sucedidos” diz Lacan no seminário sobre Os Escritos Técnicos de Freud “nossas palavras que tropeçam são palavras que confessam. Eles, elas, revelam uma verdade de detrás”.

Outrossim, o inconsciente se fecha, diz Lacan, quando deixa de ser “portador da palavra, porque já sabe ou acredita que sabe o que ela tem a dizer” (6)

É o sujeito suposto saber que permeia as possibilidades de resoluções do enigma do sintoma. Posição imputada ao analista transferencialmente pelo analisando. Essa transferência é que cria uma promessa de cura e define os próprios critérios de analisabilidade e de resistências. Não podemos perder de vista que a transferência é uma incalculável fonte de resistência ao tratamento.

É procedimento ético, recomenda Lacan, as entrevistas preliminares prolongadas, quando se dão chances às manifestações da transferência num campo de total intersubjetividade, criando-se a situação analítica e a neurose de transferência (transferência de libido do sintoma ao analista (2)).

Diante da impossibilidade de saber, o analisando capta no Outro um significante qualquer que o sustenta como sujeito se identificando aí. Trata-se da transferência imaginária ou amorosa: “Repetição de padrões afetivos devido ao estado de incompletude dos conflitos recalcados” (11). Mas se o psicanalista acompanha seu analisando em suas cadeias associativas, estará apto, como disse Freud acerca da transferência, a “se situar aí dentro uma vez que por ser objeto estará colocado em seu próprio centro” (11). É deste lugar, lugar de objeto da pulsão e não mais da identificação, que o analista poderá operar no manejo da transferência. Trata-se de uma outra perspectiva da transferência, a transferência do sujeito suposto saber.

A experiência psicanalítica tem seu campo definido pela metaforização das pulsões onde o analista como semblante de objeto a favorece a resignificação, o surgimento do novo, via ato analítico (corte). Ou seja, dentro da relação analítica o analista se transforma em objeto a e fica preso na fantasia, fantasia que deve ser atravessada pelo analisando no seu processo de cura.

O processo psicanalítico tem seu eixo na transferência. O sustentáculo da transferência é o psicanalista. “O desejo do psicanalista para além do narcisismo e ao contrário de qualquer posição de mestria é uma função que opera e não uma modalidade de pulsão que renuncia a usar o poder imaginário que lhe é dado” (7).

Uma interrupção precoce de uma processo analítico ligado à transferência negativa do paciente tem o seu correlato no prosseguimento indefinido de uma análise sem que nada de novo surja daí por conta da transferência positiva não resolvida do analista. “Geralmente o analista não atinge em sua própria personalidade o grau de normalidade que ele gostaria que seus paciente obtivessem” (12). A transferência negativa surge como efeito do manejo da transferência, ou seja, a transferência do analista é por muitas vezes o maior responsável pelo término de um análise.

A destituição subjetiva vivida no término de sua própria análise é o que possibilita ao analista abrir mão de sua condição de sujeito no percurso analítico de seu analisando. A destituição subjetiva é o advir do sujeito que se confronta com a castração, com a falta-a-ser.

Para o analisando, a destituição subjetiva implica também em desalojar o analista do lugar de sujeito suposto saber e o deixa reduzido à condição de resto do processo analítico, quando nenhum significante vem a representá-lo (des-ser do analista).

“Saber haver-se com seu sintoma. Aí está o término da análise” , propõe Lacan a propósito do caráter irredutível da neurose.

Ao final de uma análise subentende-se a destituição subjetiva e a travessia da fantasia correspondente, que a despeito da liberdade da escolha em relação ao gozo que ela favorece ao sujeito, encontra seu limite no rochedo da castração (angústia de castração no homem e inveja do pênis na mulher).

O rochedo da castração diz da falha de um saber inconsciente, uma vez que nenhuma elaboração de saber é suficiente.

Atravessar a fantasia é confrontar- se com a castração escondida lá. É confrontar-se com a revelação de que não existe um significante sexual para um outro significante sexual: não há relação sexual. Antônio Quinet diz que a “proposta analítica é levar o sujeito da impotência ao impossível da relação sexual” (13).

É neste lugar que nos defrontamos com o irremediável, o incurável, que eqüivale à falta do Outro e à própria divisão subjetiva. O sujeito não se cura de sua divisão.

Lacan diz que “O sujeito é chamado a renascer para saber se ele quer o que ele deseja” , ou ainda, a possibilidade do analisando fazer seu um desejo próprio.

No final da análise, diz Mannoni, pode-se falar de uma “ética da sublimação que se opõe às éticas do gozo, uma ética que recusa portanto qualquer posição de domínio” (5). Este movimento só é possível se o analisando renunciar ao que ele supunha em sua fantasia ser complemento, renunciar ao gozo e se permitir satisfações substitutivas.