O Feminino em Dorotéia, ultrapassado ou atual ?

Maria Mazzarello Cotta Ribeiro
Presidente do CBP

O artista vai na frente expondo a trama do Inconsciente e nós, psicanalistas, vamos no seu encalço, seguindo-o, cifrando suas pistas.

A peça Dorotéia, de Nelson Rodrigues, é considerada por Sábato Magaldi (crítico literário) como uma das quatro Peças Míticas do maior dramaturgo do teatro brasileiro. Foi escrita em 1949, estreada em 1950 no Teatro Fhoenix, no Rio de Janeiro, sob a direção de Z. Ziembinski. Pertence a uma época de sua obra nomeada por ele próprio como sendo a do “Teatro Desagradável”. As outras três, anteriores a ela, são: Álbum de Família (1946), Anjo Negro (1947), e Senhora dos Afogados (1947). Tratam de temas de difícil aceitação social e foram repudiadas pela censura e pela platéia quando a elas apresentadas, principalmente Álbum de Família, só estreada vinte e dois anos depois de sua produção, cuja trama enfoca a relação familiar fundada no incesto, mostrando a brutalidade nos impulsos humanos, o suicídio, a loucura, etc. Vemos, em sua obra, a existência tratada como dor universal onde temos a morte punindo o sexo e o sexo punindo a morte.

Outras peças foram agrupadas em Peças Psicológicas , onde Vestido de Noiva (1943) é o seu carro-chefe, incluindo ainda A mulher sem pecado (1941), Valsa nº 6 (1951), Viúva, porém honesta (1957) e Anti-Nelson Rodrigues (1973). As que compreenderam o período de 1953 a 1978 foram denominadas Tragédias Cariocas: A a href="http://www.cbp.org.br/fale.htm"cida (1953), Perdoa-me por me traíres (1957), Os sete gatinhos (1958), Boca de Ouro (1959), Beijo no asfalto (1960), Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária (1962), Toda nudez será castigada (1965) e A serpente (1978).

Na peça Dorotéia, a complexidade da vida psíquica é desenvolvida num cenário de uma casa que só tem salas, onde três viúvas beatas – como as três Parcas da mitologia grega, deusas da Morte: Cloto, Láquesis e Átropos , e que nosso colega, o psicanalista Anchyses Jobim Lopes, comparou às Fúrias ou Erínias (Aleto , a implacável; Tisífone , que promove a vingança; e Megera , que espalha a discórdia, também da mitologia grega, personagens da Oréstia de Ésquilo) que desferem o castigo, que “punem com tormentos secretos os crimes daqueles que escapam ou zombam da justiça pública ” –, uma prostituta arrependida e uma mãe de um noivo tecem, como as fiandeiras, uma trama que torna evidente a relação entre sexo, culpa e morte. Também fazem parte da cena uma adolescente que nasceu morta e não sabe, homens ausentes, mas nomeados - o Nepomuceno, que inflige as chagas e emite gritos, o noivo Eusébio, o filho morto - e alguns objetos como o jarro e as botinas desabotoadas e, perpassando tudo e todos, a náusea e... o defeito de visão.

As três viúvas, D. Flávia, Carmelita e Maura, encarnam o horror ao sexo, trazido pelas suas falas em diálogos que ocorrem numa casa que não tem quartos, só salas, revelando a impossibilidade da intimidade das pessoas, dos segredos de alcova, das relações de amor e da sexualidade.

-Porque é no quarto que a carne e a alma se perdem!... Esta casa só tem salas e nenhum quarto, nenhum leito...Só nos deitamos no chão frio do assoalho... (D. Flávia, Dorotéia, I, 206).

Comparadas às Parcas, cuja ocupação era tecer o fio do destino humano e, com suas tesouras, cortá-lo quando bem entendiam, elas também cortam o fio da vida, impedindo que a pulsão sexual, a pulsão de vida, tenha um curso progressivo ao enaltecerem os sintomas histéricos da náusea e do defeito de visão que acometem todas as mulheres da família na sua noite de núpcias.

-Na noite do casamento, nossa bisavó teve a náusea... (desesperada) do amor, do homem! (...) Desde então há uma fatalidade na família: a náusea de uma mulher passa a outra mulher, (...) (Dorotéia, Dorotéia, I, 200) .
-As mulheres de nossa família têm um defeito visual que as impede de ver homem... (frenética) E aquela que não tiver esse defeito será para sempre maldita... (...) Nós nos casamos com um marido invisível... (D, Flávia, Dorotéia, I, 201).


A posição hierática que assumem revela sua implicação com o gozo, aqui entendido como o vivido além do prazer, sentido usado primeiramente por Freud, quando escreveu, em francês, o texto de 1896 “Hereditariedade e a Etiologia das Neuroses”, uso comentado por Serge André acerca do termo jouissance empregado por Freud nesse texto. Menos por acaso que intencional, ao expressar-se na língua francesa, Freud utilizou o termo jouissance e não plaisir , em vez do vocábulo Lust, usado no alemão, que se refere mais especificamente ao prazer. O termo francês jouissance , comportando justamente esse valor de além do prazer, permitiu que ele ressituasse a experiência primária da sexualidade no registro do gozo, mais do que na dualidade do par prazer-desprazer, como era sua primeira compreensão da sexualidade humana. Citando no original :

Dans la névrose d'obsessions il s'agit au contraire d'un évenement qui a fait plaisir, d'une agression sexuelle inspirée par le désir (en cas de garçon) ou d'une participation avec jouissance aux rapports sexuels (en cas de petite fille). E mais abaixo: ... reproches, que le sujet s'adresse à cause de jouissance sexuelle anticipée, mais des reproches défigurés par un travail psychique inconscient de transformation et de substituition .

O que Freud queria demonstrar com a idéia de gozo, de jouissance, já naquele texto e que Lacan, provavelmente, teve acesso diretamente no francês, é que a experiência sexual, seja qual for, na neurose histérica ou na neurose obsessiva, “é precedida por uma experiência de passividade que, historicamente, introduz o sujeito à sexualidade e, mais precisamente, ao gozo sexual ”, em contraposição à idéia de que a histeria se construiria a partir de uma vivência primária de passividade sexual e a neurose obsessiva sobre uma experiência ativa. Deste modo, o que Freud apontou desde esse texto de 1896 é a incidência dessa marca anterior, desse outro que desempenha as funções maternas de cuidados com a criança, marcando-a com um gozo que a insere na cadeia da sexualidade, mas que não é ainda um gozo sexual, fálico, como o definido por Lacan, na medida em que a criança ainda não o tomou em sua significação sexual. É ainda um “gozo em geral” (André, p. 212), não marcado pela entrada do significante fálico, que barra e organiza o anterior. É ele que também causa a divisão na menina, produzindo o que veio a ser chamado por Lacan o gozo feminino, no que ele é “a mais”, ou “gozo suplementar ”, e não complementar, o que designaria o todo, a completude. Aqui, o que desperta maior intereresse para ele é mais a divisão no psiquismo feminino do que os efeitos da castração, como, por exemplo, a inveja do pênis. Essa divisão foi mais amplamente tratada por Lacan no Seminário XX, Mais, Ainda, onde toda mulher está submetida à castração porém, só parcialmente, o que colocaria o gozo feminino como “diferente e, acima de tudo, sem limite ”.

Então vemos que, nesse início da vida, todo ser humano é gozado pelo grande Outro e que Lacan tão bem teorizou como a posição na qual o sujeito se reduz a ser o objeto causa do desejo do Outro, posição em que ele desaparece como sujeito. Acontecimento traumático de toda neurose: ser o objeto a destinado ao gozo do Outro. Esta vai ser a base em que vai se apoiar a neurose histérica. O sujeito histérico continua se vendo como objeto de gozo do Outro, diferenciando-se do obsessivo que faz aí uma inversão: o que ele procura recalcar é tomar o grande Outro como seu objeto de gozo e, com isto, imaginariamente, matá-lo como grande Outro.

Ao exaltarem a herança familiar, o cumprimento do destino nas mulheres da família, as três personagens funcionam também como apresentações do sujeito dividido. As duas, Maura e Carmelita, são como ecos da D. Flávia, a única que recebe o título de “dona” e que é mãe de uma filha adolescente natimorta, e é quem consegue controlar-se e não ceder às fantasias sexuais e ao desejo, até a morte. Seu lema é tornar-se feia, não desejável e não desejante, onde o morrer para a vida é um dos dispositivos contra o desejo . Dizer-se feia, muito feia, é uma das formas de resposta ao incômodo de deparar-se com o furo, com o vazio diante da falta do significante feminino. A beleza é o perigo, a perdição; é a degradação do feminino encarnada pela figura da prostituta culpada e arrependida, Dorotéia, que bate à porta da casa num vestido vermelho e ... bela!

-És bonita...
-Me desculpe...
-Renegarias tua beleza? Serias feia como eu, como todas as mulheres da família? (...)
-Só lhe digo que desejaria ser - horrível! Juro... Ser bonita é pecado... Por causa do meu físico tenho tudo quanto é pensamento mau... sonho ruim... (D. Flávia e Dorotéia, Dorotéia, I, 212).


Num diálogo com as três beatas, ela vai revelando a elas seu encontro com o prazer, como provoca o desejo no outro, seduz, excede e rompe com as regras da castidade, mostrando toda a sensualidade feminina.

-Apareci nas janelas... (...) E tinha muitas combinações cor-de-rosa, azul, algumas bem bonitas... (Dorotéia, Dorotéia, I, 203).

Indignadas e furiosas com tamanha volúpia, arrancam dela a confissão de que não teve a náusea familiar e revelam também o outro defeito que acomete todas as mulheres da família, mas não a Dorotéia, o defeito visual de não enxergar o marido na noite de núpcias e então se casam com um marido invisível.

-Não tive o defeito de visão que as outras mulheres da família têm... (segreda) Eu era garotinha e via os meninos... Mentia que não, mas via... e, maiorzinha, também via os homens... (...) Comecei, então, a pensar: Se me caso não vou ter a náusea... (Dorotéia, Dorotéia, I, 203).

A náusea, o extremo oposto da fruição do prazer no orgasmo, traço centenário na família, desde sua bisavó, ocorre diante da evidência do sexo. O vômito, o nojo e a repugnância são expressões que participam do processo do recalcamento que impede o incesto e o livre curso das pulsões nas suas tentativas de satisfação, no seu desvario.

A repulsa, exemplificada pela náusea, é um dos fenômenos primários da histeria. Ocorre quando a função erótica do desejo é rebaixada ao nível da necessidade orgânica. É uma inversão do caminho natural, onde a função orgânica deveria ser elevada a uma função erótica que a ultrapassasse de modo que tudo que se referisse à necessidade fosse transposta para o registro do desejo.

O defeito de visão que acomete “todas as mulheres da família na sua noite de núpcias” nos remete ao texto de Freud, de 1910, “A Concepção Psicanalítica da Perturbação Psicogênica da Visão”. Enquanto na repulsa o corpo é deserotizado, o erótico é reduzido ao orgânico, perdendo todo seu encantamento, na conversão histérica o corpo ou partes do corpo são elevados ao máximo da erotização. Pensemos o ser humano sob três aspectos: o real, o imaginário e o simbólico. O real, já estando lá desde sempre, só poderá ser pensado e designado a partir do simbólico, que por sua vez tem os fios emaranhados na rede do imaginário, cujo momento pontual é o estágio do espelho, tendo no olhar do outro o seu anteparo. No texto sobre o estágio do espelho, o eu, como eu ideal e amor de si, seria alienado. Isso porque nesse registro o eu estaria centrado no olhar idealizante dos pais. Daí sua suposta unidade ser da ordem da alienação e da ficção, já que centrada no olhar do outro.

Freud trata a questão da conversão histérica como sendo a expressão de um malogro do recalque e o sintoma como uma forma de compensá-lo. Uma representação carregada de desejo deveria ter sido recalcada e não o foi, adequadamente. Sendo assim, as três viúvas não podem ver para não revelarem o desejo que estaria nesta representação não recalcada e que é sempre de ordem sexual. Citando Freud, “O prazer sexual não está apenas ligado à função dos genitais. A boca serve tanto para beijar como para comer e para falar; os olhos percebem não só alterações no mundo externo, que são importantes para a preservação da vida, como também as características dos objetos que os fazem ser escolhidos como objetos de amor – seus encantos”.

-Estás vendo?
-Onde?
-Ali!
-Não... não vejo nada...
-Nem nós...
-Por que mentes, mãe?
-Minto sim... eu vejo e não queria... são meus olhos que não me obedecem mais... vêem contra a minha vontade...
-Antes não víamos nada... coisa nenhuma... (Das Dores e D. Flávia, Dorotéia, II, 224).


O olhar, objeto da pulsão escópica, é um dos objetos a enfocados por Lacan e como tal, responde por toda um concentração de características que tornam o seu órgão, o olho, uma zona histerógena, que é uma zona corporal onde o sintoma da conversão histérica vem se fixar, e que tem as mesmas propriedades das zonas erógenas. O que permite tal estado é a passagem do registro da necessidade para o registro de desejo. É o movimento inverso da repulsa onde o desejo é reduzido à necessidade. Foi considerado por Lacan, no Seminário XI, como um objeto misterioso e o mais oculto. Entre a pulsão sexual e a pulsão de autoconservação, Freud introduziu o narcisismo, dividindo a pulsão sexual em dois modos de escolha de objeto: segundo o objeto de amor ou segundo a própria imagem. Porém, “em última instância Freud conclui que a libido do eu envolve a libido de objeto, de tal modo que o sujeito só pode visar seu objeto sexual através de sua própria imagem ”.

Aí vacila a histérica, quando o revestimento imaginário deste corpo ameaça romper-se e revelar em suas fendas o torvelinho das pulsões que tenta, em vão, colocar sob seu domínio.

Um outro sintoma que também sugere a disrupção entre as correntes da vida libidinal é aquele em que o sujeito cinde o objeto de amor por um lado e o objeto de desejo por outro. O mito da Santa e da Prostituta está criado. Ou ama e não tem prazer, na corrente do afeto, ou pela corrente sensual tem prazer mas não ama, é o sexo tomado como sujo, desprezível. Desde que o objeto do prazer não evoque características inconscientes do objeto incestuoso de amor, alta capacidade sexual e grande prazer podem ser desenvolvidos, como nos fala Freud em seu texto “Sobre a Tendência Universal à Depreciação na Esfera do Amor”, de 1912. A depreciação do objeto de amor facilita a liberação da sensualidade. Dorotéia relata a existência e a perseguição pelo jarro. Alusão à feminilidade e também ao corpo da mulher, concebido na ausência do significante feminino. Sua forma dá contorno ao vazio que o constitui. “A feminilidade é um traço que se inscreve no registro da falta e do vazio, que está no âmago da experiência do desejo ”, sendo válido tanto para o homem como para a mulher; mas é a mulher quem reconhece e aceita com mais facilidade sua condição de insuficiência e desamparo. Dorotéia logo o reconhece. “A feminilidade remeteria a algo presente no homem e na mulher, transcendendo então a regulação pelo falo ”. Ela não deve ser identificada com o feminino. É da ordem do vazio, do desamparo, do não-controle, não sendo regida pela busca fálica de totalização e domínio.

-No meu quarto havia um jarro... (...) O jarro me persegue... Anda atrás de mim... Não que seja feio... Até que é bonito... De louça, com flores desenhadas em relevo... (Dorotéia, Dorotéia, I, 209).

“Segundo Heidegger , quando o poteiro fabrica o jarro, ele dá forma a um vazio. O que faz do jarro uma coisa não reside na matéria, que o constitui, mas no vazio que contém ”. É ele, o jarro, que a persegue, impondo-se a ela e arrastando-a para os homens e só desaparece quando ela renuncia à sua beleza e ao feminino. Podemos pensar na atuação de um superego sádico que exige que Dorotéia abra mão da sua beleza, da sua sensualidade, que busque a sua destruição como sujeito de desejo para a expiação da culpa.

-Sim... Precisa de chagas que te devorem... E devagarinho, sem rumor, nenhum, nenhum...
-Em mim? No meu corpo? (...)
-Tua beleza precisa ser destruída! Pensas que Deus aprova tua beleza? (...)
- Devo fazer o quê?
-Basta procurar Nepomuceno... (...) Pede a ele e te dará quantas chagas quiseres... (D. Flávia e Dorotéia, Dorotéia, I, 215).


O jarro, a beleza, a prostituição podem ser tomados como símbolos do feminino, indo do sublime ao degradado. A degradação do feminino revela-se no ato da prostituição. Diante de tamanha repressão, aquela que rompe com os valores e se rende aos chamados de Eros, é vista como uma pervertida. Mas Dorotéia subverteu essa lei insensata e se permitiu a errância do desejo até que sucumbiu à culpa quando recebeu, o que considerou ser seu primeiro castigo, a morte do filho nascido de uma relação de amor que incluía o prazer, sem náusea, mas que, adoecendo, ela volta a vender seu corpo a quem iria curá-lo, e o perde como punição.

-Meu filho estava no braço da ama e era sujeito a convulsões. ”Doutor”, disse eu ao médico, “sare meu filho!” Querendo salvar o anjinho aleguei que não fazia questão de conta. (...) Pois o doutor me olhava, sem dizer nada, até que falou baixo: “Não é o seu dinheiro que eu quero”, disse. Veio para mim com seus olhos de fogo. Também disse outra coisa – que eu reconhecesse a minha profissão... (Dorotéia, Dorotéia, I, 204).

Dorotéia diz, numa canção: “Para me encontrar tenho que me perder ”! Tem que se destituir dos ideais do Outro tomados como seus. Para tal, descolou-se dessa saga familiar comportando-se diferentemente de outra prima de mesmo nome seu que se jogou na água, afogando-se no rio, por não suportar a descoberta de que “por dentro de seu vestido, estava seu corpo nu ”.

São primas, isso deveria garantir a mesma identidade pelo parentesco? No entanto funcionam como opostos. Estaria representada em ato a perversão como o negativo da neurose? Na primeira Dorotéia, o sujeito se funda no eu ideal e na alteridade, e na segunda, a prostituta, o sujeito se inscreve nos registros fálico e do ideal do eu.

O parentesco também é ressaltado no laço que as liga às viúvas. São primas e portanto devem guardar entre si algumas semelhanças, no caso, o horror ao sexo e ao homem concebido como portador do desejo; a reclusão da vida; a vestimenta que encobre todo corpo; a feiúra e a falta de atrativos femininos de que tanto se gabam.

-(...) direi (vacila) que vossa filha, Das Dores (com admiração), é linda! (Dorotéia, Dorotéia, I, 206).
-Não blasfemes, mulher vadia!... (acusadora) Linda és tu! E és doce... Amorosa... e triste! Tens tudo que não presta. (ofegante) Minha filha, nunca! (lenta e sinistra) Nós somos feias... (...) As mulheres de nossa família não têm quadris, nem querem... (desesperada) E olha as nossas mãos que não acariciam... (...) E o corpo tão seco e tão magro que não sei como há nele sangue, como há nele vida...
(D. Flávia, Dorotéia, I, 207).


Sendo parentes, todas devem sofrer do mesmo mal: a náusea. É o que esperam de Dorotéia, porque sendo também prima delas, deve ter recebido a mesma marca familiar da náusea.

As viúvas, as Parcas, não podem dormir para não sonharem porque os sonhos vêm carregados de pensamentos inconscientes, traduzidos em imagens que revelam o desejo que não podem sentir. Daí manterem-se alertas e vigilantes a qualquer aproximação daquilo que possa despertar nelas o desejo.

-E nem dormimos...
-Nunca dormimos...
-Velamos sempre... Para que a alma e a carne não sonhem... (Carmelita, Maura, D. Flávia, Dorotéia, I, 206).


São a censura, o recalcamento, a força das pulsões, o desejo inconsciente que permitem a construção dos sonhos. “O homem, como sabemos, faz uso de sua atividade imaginativa a fim de satisfazer os desejos que a realidade não satisfaz ”.

Maria das Dores, Das Dores para a família, é a adolescente que nasceu morta e não sabe. A adolescência por si só já é a explosão da sexualidade, é o significante desse despertar, que tem que estar morto, desde sempre, nessa família. Para aquelas mulheres, as viúvas, a adolescência é uma ameaça ao que elas lutam por manter suspenso, recalcado nelas mesmas, porém, não conseguem, tanto que uma delas, Maura, logo se rende diante das fantasias dessa adolescente na sua noite de núpcias, e por isto mereceu ser morta como também a outra viúva, Carmelita, encontra o mesmo destino pelas mãos da obstinada D. Flávia, mãe dessa adolescente.

-Se eu pudesse não pensar, se pudesse não sonhar!
- Pensas em quê?
-... em botinas! (...) Desabotoadas, sim... (...) Aquilo que Das Dores disse – “bonito como um nome de barco”... Ou não disse?... talvez seja uma falsa lembrança minha... mas “quem” ou “que” seria bonita assim? Quem? Imagino... o noivo... (...) porém sinto o que nunca senti... ensina-me um meio de esquecê-las e para sempre... de não pensar nelas... (lenta) E se, ao menos, eu não as visse desabotoadas... (num lamento) como poderei viver depois que as vi desabotoadas?” (Maura, D. Flávia, Dorotéia, II, 227).


É dita: nasceu morta! Morta como sujeito que tem desejos, que pensa. Aponta para a importância e peso que tem o inconsciente familiar sobre a sua descendência. Antes de nascer, a criança já é falada e marcada pelos ideais parentais. Será aquilo que constitui a fantasia dos pais, se ela se mantiver alienada no desejo do Outro e não promover a operação de separação que lhe permitirá viver.

-Pede, minha filha... Implora esta náusea... (...) ...grava em ti estas palavras... (...) ...se não pedires, tudo te amaldiçoará nesta casa!...
-Não sei se te ouço... Não sei se escuto tua voz... (...) Não quero, agora não quero... Meu noivo contou coisas que eu não conhecia...
(D. Flávia, Das Dores. Dorotéia, III, 237).


Certas relações já são determinadas antes que se estabeleçam ligações que sejam propriamente humanas. O sujeito já é contado, falado antes de qualquer formação do sujeito, de um sujeito que pensa.

-Assim como será igual a primeira noite de minha filha, que se casa amanhã... (...) ... acontecerá com minha filha, como aconteceu comigo... (D. Flávia, Dorotéia, I, 201).

A adolescência anuncia também a liberdade de escolher. “Pelo fato de ser o momento da possibilidade (e da necessidade ) de preparar e fazer escolhas, a adolescência é valorizada como imagem e garantia dessa liberdade, tempo de acesso aberto a uma diversidade de identidades possíveis ”, sendo, por isto, um dos valores da nossa sociedade.

A adolescente vacila. Fica entre o ressurgir dos mortos e o morrer retornando ao útero materno, que é uma das protofantasias apresentadas por Freud. Lembrando, são elas: o retorno ao útero, a sedução, a cena originária e a castração. No entanto, ela quase consegue manter a vida, neste estado de morte, morte simbólica da sexualidade. Porque está morta e não participa da vida fantasmática das mulheres da casa é que ela pode fantasiar, sentir os comichões da excitação, erotizar-se com seus pensamentos, conhecer o próprio corpo, o prazer e o gozo. Quer a vida que lhe foi negada.

Um noivo lhe é prometido. Precisa casar-se, passar pela náusea, para ser, então, enterrada. Neste ponto, algo muda: esse eu ficcional, ilusório, alienado no eu ideal, é modificado pelas vicissitudes da libido. Ela, até então, apenas corpo, depara-se com o significante da castração, o significante sexual, no seu contato com o noivo, que lhe “fala coisas”, a libidiniza, produzindo nesse momento o surgimento do sujeito desejante. Neste ato, ela se recusa a ser apenas um objeto de gozo da mãe. Ela não é mais o seu falo. Opta pelo retorno ao útero como possibilidade de um renascimento.

-Nasci morta... Não existo, mas (incisiva) quero viver em ti... serei, de novo, tua carne e teu sangue... e nascerei de teu ventre... (...) Escuta: serei, de novo, filha de minha mãe! E nascerei viva... e crescerei... e me farei mulher... (Das Dores, Dorotéia, III, 242).

Eusébio da Abadia, seu noivo, lhe foi trazido pelas mãos da mãe, D. Assunta da Abadia, representado simbolicamente pelas botinas desabotoadas.

-Eu, D. Assunta da Abadia, viúva triste, venho trazer, pela mão, conforme o prometido, o meu filho – Eusébio da Abadia... (D. Assunta, Dorotéia, II, 220).

Aqui recordamos J. Lacan, no Seminário IV, A Relação de Objeto , quando lembra que o falo é apresentado à criança pela mãe. É ela quem o tem nessa primeira relação de amor. “...é na relação com a mãe que a criança experimenta o falo como sendo o centro do desejo da mãe, e onde ela própria se situa em diferentes posições, pelo que é levada a manter, mas, mais exatamente, a enganar esse desejo da mãe ”.

Também em J. Laplanche, encontramos uma referência à introdução da sexualidade pelo adulto que cuida da criança. Ele diz que as zonas erógenas focalizam as fantasias parentais, as fantasias maternas sobretudo, de tal modo que poderíamos dizer que “são os pontos pelos quais se introduz na criança este corpo estranho interno que é, propriamente, a excitação sexual ”.

Ainda na peça, as botinas desabotoadas, símbolo da virilidade, marcam ali a presença do homem, Eusébio, cuja nomeação dispensa sua presença, onde a palavra substitui a coisa. Também acontece a Nepomuceno, o representante da castração e da punição. Eles não se materializam nas cenas, são trazidos pelos símbolos e nomeados pelas mulheres. A lei, o nome-do-pai veiculado aí pela mulher, é o que impede que elas se percam de si mesmas e mergulhem na psicose.

-... morreria mil vezes se me prometesses... se me prometesses uma morte como nenhuma outra mulher teve ... (...) Uma outra eternidade... (veemente) Eu não aceitaria uma eternidade em que não houvesse um par de botinas... (Carmelita, Dorotéia, II, 230).

Nepomuceno é quem inflige as chagas para a remissão do pecado. É ele também quem emite os gritos. Grita o quê? É a voz do comando superegóico? Goze! É o gozo no sofrimento do outro?

-Já fui!... Mas agora me corrigi... Agora que tenho em mim as chagas... (...) vão me devorar em silêncio... (...) Talvez acabe como o sr. Nepomuceno que vive sozinho, acompanhado apenas pelos próprios gritos...
-Só nós duas nesta casa... Nós duas e um par de botinas... (...) Teu rosto! (...) rumina tua boca torta... e tua vista de sangue... (...) Agora nem Nepomuceno te aceitaria! (...)
-Qual será o nosso fim?
-Vamos apodrecer juntas! (Dorotéia e D. Flávia, Dorotéia, III, 245, 252, 253).


Neste ponto termina a peça, talvez, numa indicação de que Eros possa triunfar através da morte quando o homem, enfim, representado aí pela empertigada D. Flávia e pela pecadora Dorotéia, aceita entregar-se ao seu último amor: a Terra-Mãe.

A despeito do temor de que explicações psicanalíticas sobre uma obra possam esvaziar nossa perplexidade diante do enigma humano trazido pelo texto, a exemplo de Freud e outros psicanalistas, tomei essa peça, não para explicá-la, mas como uma agradável ilustração para temas psicanalíticos importantes em nossa clínica.

Palavras–chave
Feminino – Sexualidade – Culpa – Gozo sexual – Gozo feminino – Sintomas histéricos – Feminilidade – Objeto a – Sujeito do inconsciente – Lei e Morte

Keywords
Feminine – Sexuality – Guilt – Sexual enjoyment – Feminine enjoyment – Hysterical symptoms – Femininity – Object a – Subject of the unconscious – Law e Death

Resumo
Este texto trata da questão do feminino abordado por vários ângulos, desde uma posição hierática até a devastação. São trabalhados temas como o gozo sexual e gozo feminino, sintomas histéricos, adolescência, a lei, a função paterna, objeto a e sujeito, numa leitura ilustrada pela peça “Dorotéia”, do dramaturgo Nelson Rodrigues, datada de 1949.

Abstract
The text deals with the question of femininity through several aspects, since a sacred position till total devastation. Here are approached such themes as: sexual enjoyment and feminine enjoyment, hysterical symptoms, adolescence, law, paternal function, object a and the subject of the unconscious. All those issues are considered through the psychoanalytical point of view, illustrated by the play “Dorotéia”, written by the Brazilian playwright Nelson Rodrigues, in 1949.

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